47 | gravidade

Poucas coisas fazem sentido dentro desse contexto todo e é justamente pela falta que encontro sentido no que tenho sentido. Sou experimento, sou objeto de estudo, sou passível de análise minha e de quem quiser me analisar, afinal, cá estou. Sempre achei que buscava pureza, hoje só quero saber daquilo que é cru, que não precisa de nada além de si para se bastar, que só pode ser sincero porque é presente e que é justamente essa sinceridade crua que a faz perfeita, sendo exatamente a única coisa que pode ser.

Gosto de brincar de me equilibrar, me colocando no limite e o testando um pouco para lá e um pouco para cá, me treinando a fluir sem cair. De tanto oscilar acabei esbarrando no ponto de suspensão entre gravidade e controle, o ponto vazio onde tudo se toca e se cancela, onde qualquer peso se anula enquanto ainda se mantém de pé. É o exato momento em que a pulsão entre atração e repulsa se torna constante, em que o eixo se mantém vibrando em seu lugar sem ir e nem voltar, sem aproximar e nem afastar, sem aumentar e nem diminuir, apenas sendo perfeito, apenas sendo cru, apenas sendo.

Do outro lado há o abismo onde tudo vira tudo e nada, onde numa eterna queda transcendemos o tempo e ele deixa de existir. Caindo deixo de estar, constante em meio ao caos porque caos também sou, preenchida do vazio que me forma e forma tudo ao meu redor. Caindo permaneço em movimento estático, inerte e vivo. Caindo sou potência e só potência porque ali nada posso ser, porque se for significa que já cruzei a linha e deixo de cair.

Pela primeira vez, num movimento rápido e instintivo, estendi a mão e me segurei no último fiapo de consciência, tão fino quanto cabelo. Sem querer de tanto querer me encontrei no limiar entre gravidade e controle. Qualquer movimento vai com certeza o romper, então permaneço. Olho ao meu redor e percebo que nunca antes me vi aqui, nunca antes tive a coragem de chegar tão perto e só o cruzei quando, acidentalmente, escorreguei na beira e despenquei direto. Preciso de mais tempo para registrar onde estou porque com certeza vou querer voltar. Seguro no fio com toda a delicadeza que consigo e torço para não bater um vento, se ele romper estou perdida.

21 de outubro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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