48 | portais secretos para dentro de mim

Sempre gostei de ficar sozinha e meu processo das últimas semanas tem sido identificar exatamente o por quê, quais são os pontos que se acendem aqui dentro de mim. Pego pequenas constantes em minha vida e as desintegro para encontrar o que as constituem. Dissolvo sensações em ácido. Reforjo comportamentos em fogo incandescente.

Observando o ar ao meu redor vejo que a magia de estar sozinha em casa acontece quando noto que tudo some, quando não há mais ninguém por perto, quando ninguém sabe de mim e eu não sei de mais ninguém, quando qualquer coisa que eu faça ou deixe de fazer é puramente meu. Percebo que não importa quanto tempo se passe, aqui dentro é sempre igual. Tirando tudo o que sempre me cerca só me resta eu, sempre eu, sempre a mesma.

Sou agora com 27 exatamente como eu era aos 14, mesmo que inteiramente diferente. É só quando me deparo com o espelho que vejo o tempo que se passou. Olhando para o rosto que me vê de volta, vejo também todos os rostos que um dia já me viram os ver. Em meus olhos vejo os ciclos que abriram e fecharam e os que se encontram comigo no meio. O espelho guarda instantes de mim como álbum de fotos e passeio por elas tentando entender como cheguei de uma a outra e tudo que existiu no espaço do meio.

Pequenos e grandes marcos marcam momentos importantes em minha história. Me lembro de pedaços de tempo vivido que só eu posso lembrar e me sinto responsável por mantê-los vivos, afinal sou só eu que posso. Me sinto também responsável por preservá-los como meus, porque compartilhá-los com alguém faria com uma outra pessoa fosse transportada para lá, comprometendo toda a estrutura, princípio e integridade daquele momento que só existiu e foi o que foi porque se fez na base de eu estar só, de qualquer outra forma ele deixa de ser o que foi e se evapora, deixando de ser memória.

Brinco comigo mesma e com as várias eus que já fui e que ainda vou ser, dançamos todas juntas em torno da fogueira da vida e entendemos como uma só pode ser o que é por todas as outras, um fio de cabelo diferente e toda a história se torna outra. Sorrio para o nada. No nada me sinto em casa porque é dele que sou feita para deixar de ser. Guardo meus momentos só meus como tesouros preciosos, são eles os portais secretos para todos os mundos internos que já habitei.

22 de outubro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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