49 | não estou sozinha, estou comigo

Ontem falei sobre ficar sozinha e hoje vou continuar falando sobre isso porque continuei sozinha e, porque sou eu, o assunto se estendeu dentro de mim durante o dia inteiro. Me lembrei que uma das minhas maiores propostas como ser humano é ser uma defensora ferrenha da solitude, assim como da crise, do choro e do silêncio.

Tenho opiniões muito fortes dentro de mim sobre certas coisas, mas que nunca veem a luz do dia de tanto processamento pelo qual passam antes de sair de mim. A necessidade de ser aceita e compreendida me faz ser abstrata e ampla, me dando a margem de erro que preciso para driblar qualquer oposição. Me pego fazendo isso e sinto nojo ao mesmo tempo que entendo totalmente porque conheço minha história, sei de onde isso vem, sei para quê essa defesa me serviu até hoje e ainda me serve, mas cansei.

Sozinha sinto a certeza que raramente sinto quando existe qualquer outro ser ao meu redor. A força bruta dentro de mim finalmente pode tirar a roupa de pelúcia que esquenta, abafa e sufoca. Enquanto arranco de mim os conformismos respiro ar fresco. Sozinha não preciso me justificar, não preciso me explicar, não preciso dar voltas e voltas em torno do que sinto para não precisar falar o que não quero ouvir minha voz dizendo.

Em todos os meus relacionamentos da vida, desde que eu me entendo por gente, essa questão é uma questão: preciso do meu tempo sozinha na minha bolha. Preciso. Esse tempo dura o tempo que ele precisa durar e ele vai ser preenchido da forma como eu quiser porque não interessa a mais ninguém. Muito se fala sobre a liberdade. Pois bem. Essa é a liberdade que eu exijo para mim, a liberdade de ter o meu espaço só meu.

Nem sempre as pessoas entendem e não precisam, mas é isso que faz parte do meu pacote. Não é possível me ter sem ter também essa necessidade que para mim é tão fisiológica quanto comer ou dormir. Sei que nem todo mundo é assim e tudo bem, recarreguem-se como quiserem, mas essa é a minha forma de funcionar e ela funciona para mim.

Eu pretendia falar a partir de uma perspectiva mais de contemplação do silêncio, mas já faço isso demais e vou continuar fazendo depois, hoje me sinto com vontade de fincar o pé nas minhas próprias opiniões porque hoje me sinto capaz de fazer isso, nem sempre consigo. Meus complexos de inferioridade me fazem achar que todo mundo sempre sabe o que está falando, menos eu, mas todo mundo já sabe que esse é o maior delírio coletivo de todos os tempos.

O verdadeiro diálogo só acontece quando se trocam opiniões e para isso preciso colocar as minhas na mesa, expostas e passíveis de serem refutadas. Preciso confiar mais em mim e parar de abaixar a cabeça a qualquer sinal de discordância, afinal, cultivo minha sabedoria com muito cuidado para mante-la escondida atrás concordâncias e é exatamente desse cultivo que me ocupo quando tenho esse tempinho só meu. Só sou quem eu sou porque me dedico a mim com a mesma intensidade que me dedico às pessoas que amo.

A verdade é que quando estou sozinha é quando me sinto menos sozinha no mundo. Não me sinto só porque realmente não estou, estou comigo. Sou uma ótima companhia e quero desfrutar dela também, quero passar tempo de qualidade com a minha amiga mais antiga e a pessoa que mais me conhece no mundo: eu mesma.

23 de outubro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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