56 | dias melhores

Satisfação em apertar 13 nas urnas. Desgosto em caminhar pelo local de votação e ver esse tanto de gente usando as cores nacionais como ameaça. Crianças vestidas como seus pais sem saber que carregam no peito o símbolo do ódio. Sei que há um movimento acontecendo de recuperar as cores que um dia já evocaram a natureza exuberante desse nosso lindo território, mas sinceramente não sei se um dia vou conseguir olhar para o verde e amarelo sem sentir desespero.

Não vou dar conta de sair. Não vou aguentar todos os nervos à flor da pele que vão passar por mim se formos assistir essa apuração na rua. Aproveito a espera para ocupar minhas mãos e fazer faxina na casa, voltando a cada 2 minutos para atualizar a página. Cada apertada na tecla deixando a diferença mais apertada. Agora não tem mais o que fazer, é só esperar. Estou confiante, mas ali na minha visão periférica habita a sombra do futuro que está perto demais de vir a ser, tão perto que já está sendo faz um tempo. Agora não tem mais o que fazer, me distraio da sua existência enquanto der, porque eventualmente ela vai entrar no meu campo de visão.

Leio em suas mensagens as sobrancelhas tão franzidas que quase se atravessam e sinto em meu peito o peso que faz o seu tremer por não aguentar mais segurar. Vem aqui pra casa. Sua roupa está pronta para comemorar, mas seus olhos só vestem pânico. Ficamos nós três em meio-silêncios, sentindo um monte de coisa sem saber ao certo o que sentir, interagindo somente através das paredes que nos cercam. Nos observo lidar cada um da sua forma, pelo menos nos temos, estamos aqui.

Estou confiante, mas sei que também é inocência demais. Agora já foi, né? Não tem mais como passar, não tem mais como passar, já deu! Os vizinhos gritam em comemoração e eu sorrio ao saber que ao meu redor também mora o bom-senso. Sinto o alívio e a esperança de que não estamos completamente perdidos, mas também tenho medo de comemorar muito cedo o que parece óbvio que deveríamos estar celebrando. É um começo, um grande, necessário e feliz começo, mas é só o começo.

O vermelho chama pelo sangue vivo que finalmente pode voltar a pulsar em nossos corpos, mas também traz consigo todo o sangue que já foi e que ainda vai ser muito derramado. Poucas coisas são mais perigosas que o desespero e não consigo parar de pensar que toda essa podridão que se apossou do mundo agora treme mais forte do que nunca por saber que a posse não vai mais ser sua. Ainda não consigo entender como a diferença foi tão pequena depois de tudo isso que aconteceu, mas respiro mais aliviada. Há esperança, dias melhores virão.

30 de outubro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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