57 | pequenices

A chuva cai cheia pela primeira vez em muito tempo. Chove a tarde inteira aquela chuva que chove com gosto, que não jorra e nem contém, que apenas chove do jeito que pode aquilo que tem para chover. Amanheci no dia nublado que permaneceu nublado sem deixar de ser dia. As gotas caindo no asfalto fazem carinho em meus ouvidos e os trovões preenchem o silêncio, um relâmpago ou outro acende o céu por um instante.

Ontem estava insuportável de calor com um sol fustigante e um ar abafado e pesado. Gosto de ser simbólica e não consigo deixar de pensar no quanto faz sentido essa chuva gostosa chover justamente hoje, lavando a atmosfera carregada de eletricidade e deixando que a poeira baixe. A tensão que só aumenta há anos deu uma relaxada e agora podemos finalmente respirar.

Um dia leve, um dia lento, um dia estranho, mas também um dia bom. Tem vezes que só de não ser ruim já é uma vitória. Me entreguei à lentidão e fiz tudo devagar [inclusive acabei de lembrar que esqueci de tirar as toalhas da máquina de lavar]. A cabeça não conseguia focar em nada então larguei dela e foquei no corpo. Encontrei meu equilíbrio em um pé só controlando o corpo inteiro num encaixe de quadril [louvada seja a yoga em minha vida].

Pouco a pouco as coisas voltam ao seu lugar e pouco a pouco me realinho comigo mesma como tantas outras vezes antes, ajustes e desajustes andam cada vez mais frequentes e a manutenção se faz cada vez mais necessária. Talvez ser adulta, entre outras tantas coisas, seja sobre aprender a poupar forças, a escolher bem onde e quando botar minha energia para girar, porque da mesma forma que ela vem ela vai e se eu não tomar cuidado só me disperso por aí.

Comecei a aprender uma música no teclado e botei na cabeça que vou tirar ela inteira assim como botei na cabeça que ia escrever todos os dias. Quero fazer muitas coisas todos os dias, mas me faltam horas enquanto me sobram horas e me faltam dias enquanto me sobram dias. O que nunca falta é o tanto de coisa que eu queria fazer todos os dias e o que me sobra é a preguiça de fazer qualquer coisa.

Preguiça que na verdade não é preguiça né, é cansaço. Cansaço emocional, cansaço mental, cansaço energético, cansaço social. É muita coisa para pensar e muita gente para responder porque todo mundo fala o tempo inteiro e eu só quero jogar meu celular bem longe e só me preocupar em viver, mas as notificações não param de chegar.

Ah é, as toalhas na máquina… Já tinha me esquecido delas de novo.

31 de outubro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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