58 | sobre eu e vocês

"Ele não é fofoqueiro, ele é roteirista". Ao redor da mesa todos rimos enquanto ouvimos as histórias da vida de pessoas que não conhecemos. Mal de escritor né, afinal, só podemos falar sobre aquilo que vivemos de alguma forma, mesmo que seja através de outres. Tudo o que eu escrevo é sobre o que observo, o que ouço e os detalhes que percebo no meu cotidiano e que se embolam e se desenrolam dentro de mim até precisarem sair. Seguro meus comentários enquanto vivo e os guardo pra fofocar aqui com a tela.

Me pergunto isso o tempo todo: será que tenho licença poética pra falar sobre vocês? Até que ponto posso falar sobre o que sinto quando o que eu sinto envolve também o sentir de uma outra pessoa que não escolheu se expor? Torno meus relatos vagos e confusos por medo de falar demais de algo que não é meu, então retiro a situação e fico só com os pensamentos, o que às vezes acho legal, mas não deixa de ser uma manobra evasiva. Não quero invadir a privacidade de ninguém, mas falo sobre os meus dias e quem faz parte deles eventualmente aparece.

Falando assim parece que eu sou lida por uma multidão quando na verdade falo com alguns gatos pingados que eventualmente caem aqui, mas também sei que uma só pessoa já é o suficiente pra causar desconforto. Sei lá, talvez seja eu que me preocupo demais com tudo a toa e na verdade ninguém liga, mas acho importante pensar sobre.

É daí que nasce a ficção, né? É um jeito de falar sobre o que você quer falar sem falar realmente o que você quer falar, de contar algo que aconteceu sem contar o que aconteceu… Talvez eu devesse me aventurar mais por esses lados, mas também gosto de trazer a simplicidade da realidade. Quando eu estava viajando com a minha mãe e escrevendo sobre ela comentou que a gente sempre soube que você via as coisas diferente, mas é legal ver o quão diferente você percebe as coisas porque eu tava lá também e não foi isso que eu vi — parafraseei porque não lembro exatamente como foi, mas foi mais ou menos por aí. E eu achei isso tão legal, sabe?

Acho que esse é o meu jeito de mostrar que existem várias perspectivas sobre tudo o que vivemos porque cada pessoa percebe e sente a realidade de uma forma. Tenho certeza que os mesmos momentos que inspiram o que eu narro aqui seriam textos completamente diferentes nas mãos de quem os compartilhou comigo. No final das contas isso é a vida, né? É sobre compartilhar a nossa versão de tudo que vivemos e ampliarmos todas as nossas perspectivas sobre tudo.

Penso que não quero expor vocês, mas na verdade parece que o que me dá medo mesmo é me expor pra vocês. Medo de mostrar como eu realmente vejo as coisas, medo de ser contestada, medo de me fazer de ridícula… É muito fácil escrever pra quem não faz a menor ideia de quem eu seja, mas pra quem estava lá também e quem sabe de onde eu venho, ah, é aí que o bicho pega. Sempre fui muito tímida e teoricamente esse é um ótimo jeito de me expor sem realmente me expor, mas ainda assim me sinto pelada. Minhas intimidades todas à mostra pra quem quiser ver e largadas pra serem interpretadas de qualquer forma. Não sei o que é pior, o completo descaso ou o genuíno interesse.

01 de novembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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