59 | coerência

Você é a pessoa mais coerente que eu conheço. Ouço a palavra sair da sua boca e me preencher por completo. Instantaneamente me lembro do dia em que, num pico de insegurança, perguntei à minha mãe se ela achava que eu estava ficando louca, ao que ela respondeu a frase que se tornou meu lema de vida: não espero nada de você a não ser coerência com o que te faz feliz.

A linguagem é uma coisa tão tosca e ainda assim é tudo o que temos, você falou quando comecei a espiralar sobre meu medo de usar as palavras erradas e ser mal-interpretada, faz parte da experiência. Chega a ser difícil pontuar momentos quando tudo o que a gente fala é uma discussão inteira por si só, destroçamos os significados que aprendemos a entender e os remontamos novamente.

Mas o que você entende por objeto? Ah, tá, é isso então. É porque pra mim objeto é outra coisa, agora tudo faz sentido, sim, entendo. Tenho problemas com o conceito de integridade e é total por causa do ambiente acadêmico. Boto fé! É, eu não sabia que isso era uma parada mesmo, não era isso que eu queria dizer então. É porque eu penso que… Mas então… Concordo, mas… Não boto fé, sabe por que? Eu também acho isso, mas pra mim eles não são opostos. É, faz sentido na real… Uma coisa não anula a outra.

Palavras. Tão minúsculas e tão gigantes ao mesmo tempo. Entendo que elas nem sempre precisam ser nome e as uso intercambiavelmente. Não foque nos termos exatos que eu uso, por favor, e tente entender pelo contexto o que existe por detrás deles, porque mesmo que concordemos que a garrafa é rosa, nunca vamos saber se vemos o mesmo tom de rosa — provavelmente não. No olhar entendo quando falei algo que você sente de outra forma e reformulo, por isso gosto de conversar no um-a-um, não quero ser mal-entendida.

Mas Mari… Não tem como fugir disso, faz parte do comunicar. Eu sei, mas é foda... Ô bichinha… É, parece que nunca vamos conseguir sincronizar exatamente todas as camadas de significado que cada pessoa atribui a cada palavra porque afinal de contas essa é a vida, não? Somos únicos nas referências que temos e, quem sabe, além de tantas outras coisas, seja isso também que sejamos: um acúmulo de referências que absorvemos até que elas nos deem forma.

Seguimos universalmente incompreendidos vivendo em busca de traduzir o intraduzível nessa coisinha tosca e minúscula que é a linguagem, e que ainda assim é tudo o que temos. Acho que é por isso que eu falo tanto, porque talvez se eu só continuar ad infinitum quem sabe aos poucos o contexto vá se formando e fique claro o que eu quero dizer a partir de onde eu venho. Nada comigo é fato. Nada do que digo é definitivo. Nada em mim é fixo.

02 de novembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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