64 | os sonhos ansiosos voltaram

Peguei a alface, o brócolis, o tomate cereja e os equilibrei em cima de todos os outros itens que eu jurei serem poucos o suficiente para eu conseguir carregar nos braços. Não errei feio, errei rude. O brócolis foi o primeiro a cair, depois dele o desodorante que escorregou pela lacuna entre cotovelo e costela e saiu rolando para debaixo da gôndola, quando me abaixei para pegar todo o resto se esparramou pelo chão, até mesmo, inclusive e especialmente os tomatinhos.

Depois de perder mais algumas coisas pelo caminho, cheguei no caixa e fui pagar. Erro de leitura. Tenta de novo. Erro de leitura. Mais uma vez. Não tá indo, moça. Rostos impacientes se acumulam atrás de mim e queimam minha nuca. Tenta esse outro aqui. Saldo insuficiente. Tenta o outro de novo, deixa eu esfregar aqui pra ver se vai. Erro. A atendente masca um chiclete que já deve ter perdido o gosto só pelo tempo que estou aqui, seus olhos também, aparentemente.

Pode ser pix? A voz falha no meio das reclamações audíveis de onde estou. Pode sim, aqui ó. Ela me mostra um QR Code e o celular sai voando da minha mão, me abaixo para pegar e vejo que a tela rachou um pouco, mas depois eu lido com isso, agora não dá tempo nem para me lamentar. Abro o aplicativo do banco e senha incorreta, tente novamente. À essa altura olhar para trás é como olhar para baixo e a vertigem me derrete. Senha incorreta, tente novamente. Senha incorreta, tente novamente. Conta bloqueada.

O ar não chega aos meus pulmões não importa o quão rápido eu respire. As lágrimas correm apressadas até meus olhos, mas assim como a fila atrás de mim que não consegue passar, elas não conseguem escorrer, e assim como eu permaneço empacada no caminho, elas se acumulam na beira dos meus olhos sem coragem de descer. A visão cada vez mais borrada ainda não me impede de perceber o tanto de gente que me encara esperando que eu, pelo amor de deus, só faça alguma coisa. Qualquer coisa.

Acordei com a moça do google tradutor chamando meu nome sem saber se levei um susto, se ainda estava em desespero ou se podia respirar aliviada. Na dúvida, senti os três ao mesmo tempo e quase me engasguei. A voz robótica vinda do quarto continuou falando incoerências até eu entender que era você usando seu método preferido para me acordar como te pedi ontem antes de dormir porque sabia que, como nos últimos dias, o meu próprio despertador ia continuar falando sozinho. Ri do alívio cômico, sinceramente, ainda com um pouco de vontade de chorar.

07 de novembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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