65 | quando a gente esbarra onde já tinha rachadura

Bateu em algum lugar que não devia aí? Seus olhos param de rir antes da boca quando percebem que sua gargalhada me jogou para dentro de mim. Começo a falar qualquer baboseira sobre tortas de maçã, a única coisa pequena o bastante para passar pelo bolo na garganta, não pra tentar fingir que está tudo bem — porque eu não sou idiota de pensar que te engano — , mas porque agora eu não quero falar mais nada. Sim, é fácil assim me machucar. Sim, eu sou sensível demais. Sim, eu sei que não foi essa a intenção e sim, bateu em algum lugar que não devia aqui.

É o tom de superioridade que me mata, sabe? Já é tão fácil eu me sentir mais baixa que quando sinto alguém falando por cima me desmonto. A voz que ouço sair de você não é a mesma que entra pelos meus ouvidos quando são as palavras de outros que ecoam dentro de mim. Me sinto pequena, minúscula, ridícula por ter sequer ousado falar qualquer coisa. Ideia de merda abrir a boca, devia só ter ficado calada mesmo... Como sempre. Eu que sou errada no final das contas, né? O mundo todo funciona perfeitamente e todo mundo sempre sabe de tudo, eu que sou difícil.

Só que o mundo não funciona, lembra? Ninguém funciona, especialmente quem se infla de razão. Eu tenho que ser como vocês então, é? Ah, tá. Claro. Percebo que me enfiei em um buraco e não sei como cheguei aqui, mas a dor se torna raiva conforme a revolta cresce em minha garganta. Me recuso a me adaptar a um sistema ridículo feito para tornar todos nós infelizes e miseráveis. Me recuso a me matar correndo para tentar alcançar um ritmo que não é o meu. Me recuso a enxergar minhas características como defeitos simplesmente porque elas não se encaixam no molde que sei lá quem criou por motivos próprios que nada tem a ver comigo. Me recuso a deixar de ser tudo que me faz ser eu porque a vida que a gente vive exige que eu seja outra. Pois largo dessa vida, mas não largo de mim!

Não foi nada disso que você me falou, eu sei, mas foi nisso que você esbarrou sem querer ao se sentir confortável na minha presença e eu, por instinto, entrei na defensiva. A diferença entre a sua voz e todas as outras é a compreensão que chegou na mesma hora, logo ela que sempre faltou vinda desse lugar e, pensando bem, me é tão desconhecida que nem consegui a sustentar. Acostumada a ter que recolher meus trapos sozinha, não sei se o faço por ser essa uma necessidade ou por costume. Me fechei dentro de mim e te deixei do lado de fora, me desculpe, logo hoje que choveu pra caramba.

08 de novembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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