71 | respiro pelas frestas

É uma pena ter que fechar a janela quando a chuva vem, logo ela que está tão ali fora quanto aqui dentro. Separadas pela janela de vidro choramos juntas por toda a umidade que se acumulou. Pensando bem, na verdade, agora ela chora por mim e desagua minhas lágrimas pela cidade inteira.

O vento mudou de direção, já posso abrir nossa divisória e sentir em meu rosto o frescor do tempo que o tempo fecha para não ser sol. Eu também me canso de ser sol. Em mim também chega um dia que precisa chover, custe que o que custar.

Nunca fui muito fã de dias ensolarados, eles que vem de um lugar tão longe das noites de tempestade com as quais já me fiz íntima. Quando chove o mundo para, mesmo quando continua acontecendo, e todo mundo, pelo menos por um milésimo de segundo, é levado a olhar para dentro.

Meu corpo cansado de carregar tudo isso só quer dormir, coitado, ele não foi feito para abrigar dentro de si toda essa turbulência, e ainda assim, cansado, a carrega nos ombros e a faz comportar, o que só a deixa mais desvairada, crescendo em tamanho, intensidade e velocidade com a qual rebate tudo que há dentro desse pequeno corpo, cansado.

Sou expansiva porque não me caibo, sou fechada porque é desconfortável ser vista. Quando tudo o que ecoa na cabeça de uma criança é o que as pessoas vão pensar, bom, você cresce com a certeza de que não importa o que você fizer, as pessoas sempre vão pensar algo a respeito — e isso é uma coisa ruim — , então você aprende a nunca fazer.

Não era bem sobre isso que eu ia falar, mas também não sei se eu sabia o que eu ia falar e acho que a gente fala muito mais pelas pequenas coisas que deixa escapar entre tudo aquilo que realmente se quer dizer. Normalmente o que a gente menos quer falar é o que mais precisa ser dito e quando surge uma brecha sai pela fresta e corre para o mundo, vez ou outra sendo pego por um olhar atento.

Meu corpo cansado de muito mais do que a falta de sono e que precisa de muito mais do que comida. Meu pequeno e cansado corpo que mais é uma representação simbólica das minhas emoções do que forma física que as carrega por dentro. Mesmo que minha consciência não note, meus sentidos aguçados me fazem sentir o que se sente ao meu redor e quanto mais cansada mais me deixo levar. Não é segurança que me falta, é o isolamento de tudo que me alcança para que eu consiga me lembrar onde estão as minhas linhas porque sem forma tudo fica difuso, sem voz é confuso e pintando no escuro a tendência é borrar.

14 de novembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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