75 | sou capaz de certas coisas que eu não quis fazer

Lágrimas escorrem do céu enquanto chove dentro de nós e em silêncio respiramos. A paisagem tem aquele tom de verde com o qual tanto gosto de tingir minhas fotos e me questiono se foi ela que nos trouxe até aqui ou se foram nossos corações que cheios de tanta tristeza a transbordaram no céu.

Não há o que dizer e não pareço conseguir calar a boca. A cabeça se enche tanto de pensamentos que eles se congestionam na garganta, querem passar todos ao mesmo tempo e, tão gentis e tão covardes, cedem sua vez. Nenhum quer ser o primeiro a se tornar voz. Há tanto a se dizer e nada que importe realmente. Não há o que dizer. Em silêncio respiramos.

Não sei se o que sinto é meu, se é seu, se é nosso, se é real ou inventado. Não sei se é por agora, pelo que um dia já foi, pelo que pode ou pelo que ainda vai vir a ser. Não sei de onde vem o que eu sinto, se é de fora ou de dentro, de baixo ou de cima, mas sinto tanto, mas tanto que quase nem consigo sentir.

A luz amarelada tão distante e tão incômoda se junta à água e cria mosaicos de lava que escorrem por nossas peles, nossas roupas, nossos olhos, que escorrem por nós. Contemplamos as pinturas que se formam e deformam nossos rostos tão petrificados na solidão que não conseguem se alcançar.

Dois buracos negros dançam em órbita querendo mais do que tudo se tornar supernova, mas sabem que chegar perto demais traz o risco de não ter mais volta. Um sabe a fome ser tamanha que consome sem medida e o outro teme toda a entrega que, fácil assim, se deixa engolir. A gravidade nunca antes tão palpável estreita a linha já tênue.

Em silêncio respiramos.

18 de novembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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