79 | o quarto

No quarto em que tudo cabe cabem nós todos e todos os nós que nos amarram no lugar. Dessa vez cheguei na porta carregada de bagagens recheadas com tudo o que podemos precisar para nos dedicarmos ao dia de dedicação que tanto precisamos e só esqueci de uma coisa, justo aquela que você me lembrou duas vezes de pegar. Dessa vez cheguei carregada de bagagens que se espalham abertas pelo chão e pela cama como nós por eles também nos espalhamos. Dessa vez, como em tantas outras, cheguei carregada de bagagens que eu nem sabia carregar.

No quarto em que tudo cabe coube o espaço necessário para eu não me afugentar e, mais que isso, abriu-se o exato espaço calculado com cuidado pela intuição de quem o teme para que eu queira mais do que tudo o ocupar, logo eu que morro de medo de ocupar espaços comigo mesma. A única forma de curar é o contato que só acontece quando se permite acontecer então seguro sua mão, seguro minha mão, junto toda a pouca coragem que cabe em meu pequeno e fraco corpo e fecho os olhos me preparando para o salto que pode tanto me partir ao meio quanto me lembrar que eu sempre soube voar.

No quarto em que tudo cabe couberam meus medos e também os meus desejos e foi aqui que descobri que só pode ser assim mesmo pois eles andam de mãos dadas. Não sei se choro de tanto rir ou se rio por precisar tanto chorar, mas acho que os dois e nenhum ao mesmo tempo quando aos soluços e gargalhadas chego a me engasgar com a enxurrada de emoções misturadas que me inundam e me afogam e me lavam a alma e que te deixam só um pouquinho confuso e que, sinceramente, me deixam totalmente confusa também.

No quarto em que tudo cabe cabemos eu, você e a gata nessa noite como em tantas outras noites, manhãs e tardes antes dessa. As músicas que só existem aqui marcam o espaço e deixam uma marca em minha história que agora também é um pouco sua por te ter dentro dela. Para dentro e para fora, para cima e para baixo e indo de um extremo ao outro viajamos no tempo trazendo dores do passado e espalhando em seu lugar sementes de um amor que pouco a pouco refloresta as memórias escondidas nos cantos mais sombrios de nossas almas.

22 de novembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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