82 | revoltinha minha de todo dia

Sim, eu sei. Eu entendo que agora tudo no mundo é conteúdo e que, querendo ou não, o caminho é se adequar aos tempos e que ao reclamar disso a cada dois segundos eu me torno exatamente igual a minha vó indignada com minhas tardes inteiras passadas em frente à tv assistindo Disney quando eu tinha meus oito anos. As opiniões dela não me impediram de ver os desenhos e muito menos retardaram o domínio da tecnologia sob nossas vidas, mas agora anos depois escuto o tom da sua voz já esquecido na minha quando falo sobre exatamente a mesma coisa.

Sim, eu sei, não há o que fazer, o mundo muda e evolui e nada nunca continua igual e, ainda assim, finco o pé, faço bico e resisto como a criança emburrada que sempre fui .Do fast food à fast fashion ao fast thought, me recuso a contribuir com uma indústria que gera cada vez mais e mais lixo destinado aos enormes aterros de ideias iguais e vazias.

Tá, mas não é exatamente isso o que eu estou fazendo aqui? Colocando no mundo — mesmo que numa pequena parcela — meus pensamentos e sentimentos que de nada servem que não tirar de mim o que não tem função nenhuma além de sair de mim?

De alguma forma me faz mais sentido ser inútil do que contribuir com essa necessidade distorcida de utilidade que só gera mais e mais do mesmo — como se uma branquela privilegiada colocando seus sentimentos para fora do conforto da sua cama não fosse, também, mais do mesmo.

A questão é que eu realmente acredito que é muito menos sobre o que e muito mais sobre o como, que cada pessoa tem uma forma única de ser e que a única coisa que vale a pena tirar de nós é aquilo que só pode sair, dessa forma, de nós. Uma particularidade muito minha é a insistência quase obcessiva de olhar para dentro, então insisto em obcecar em cima de cada milímetro do meu ser porque é isso o que eu sei fazer.

Abro o instagram e sou inundada por posts de perfis de autoconhecimento que falam sobre a importância de pararmos de nos buscar fora de nós quando, eles próprios se tornam uma fonte externa constantemente despejando em seu público respostas mastigadas e prontas para o consumo. Franzo as sobrancelhas, faço cara de nojo e fecho o instagram. É pra eu tentar me encaixar nisso? Nisso que vai contra tudo o que eu penso? É esse o jeito? É assim que se acompanha os tempos? Abro o instagram e dois segundos depois largo o celular longe. Preciso usar a internet para trabalhar, mas como fazer isso sem sentir que estou vendendo a minha alma?

25 de novembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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