85 | depois que meu gato morreu

Lendo uma crônica sobre a morte de um cachorro me lembro do dia em que meu gato morreu. Não sei nomear o que senti, mas sei que nunca mais senti tanto quanto no dia em que cheguei em casa e vi minha mãe me esperando com o rosto inchado, vermelho e molhado de tanto chorar. Conheço o choro da minha mãe, já a vi chorando muitas vezes antes, mas eu não conhecia aquele choro, aquele era diferente e eu soube no momento que o vi que algo muito importante estava muito errado. Quando ela finalmente conseguiu verbalizar as palavras que fizeram meu coração parar no lugar a parte do meu cérebro que registra memória se desligou.

Não sei qual foi a minha reação, se fiquei em silêncio, se fiz perguntas, se desatei a chorar ali também. Não me lembro. Lembro de ser levada até o veterinário onde estava guardado o seu corpinho porque minha mãe que me conhece tão bem sabia que eu ia querer me despedir do meu melhor amigo. Lembro de vê-lo deitado na maca gelada com seu grosso casaco de pelos alaranjados metade escovado, metade molhado. Ele morreu tomando banho.

O banho era à domicílio, porque ele já era um gato velho e o deslocamento o estressava demais. Ele que passou por muito estresse na sua longa vida de gato, mas também foi muito amado. Será que ele sabia o quanto ele era amado? O banho lhe era dado no banheiro de casa e nas outras vezes eu mantinha a porta aberta para que, por mais assustado que ele ficasse, pudesse olhar para mim e saber que eu estava ali o esperando.

Mas nesse dia eu não estava em casa.

Saí cedo, ainda no meio de uma madrugada escura e gelada. Acordei com sono e, querendo ficar na cama quentinha, me demorei a levantar, perdendo grande parte do tempo precioso que precisava para me arrumar. Ele sempre dormia na cama comigo, grande do jeito que era ocupava mais espaço do que eu, mas na noite anterior fechei a porta para falar no telefone e dormi no meio da chamada. Ele ficou sozinho trancado do lado de fora.

Me arrumei às pressas porque não poderia me atrasar e, no caminho do quarto para a sala, ele me esperava para estender a pata e me chamar a atenção. Olhei para ele e lhe dei um oi sonolento, apressado e curto demais. Ele abriu a boca e a manteve aberta e eu lembro de estranhar o movimento, como se fosse falar alguma coisa, mas resolveu deixar para lá. Não tive tempo para pensar muito sobre, afinal eu estava à beira de me atrasar e logo mais eu estaria de volta. Agora não tenho tempo para te dar atenção, meu amor, até depois.

O depois foi eu deitada sobre seu corpo estendido na maca com a cara encharcada enfiada em seus pelos metade escovados e metade molhados, com cheiro de shampoo.

Eu não estava em casa.

Eu não estava em casa.

Ele, que sempre esteve comigo, e eu, que o deixei ir embora sozinho porque eu não estava em casa, que o deixei dormindo sozinho porque o esqueci do lado de fora, que não lhe dei a atenção que merecia quando me pediu porque eu estava com pressa.

Na noite anterior eu devorava um dos livros que mais me prendeu na minha vida e não conseguia parar. Minha mãe me chamou do quarto dela porque minha irmã que morava longe tinha pedido um vídeo dele brincando daquele jeito que ele gostava de brincar, tirando a patinha debaixo da nossa mão e colocando de volta por cima. Já vou, respondi, e nunca fui, me deixei sugar pelo livro porque só faltam mais duzentas páginas, não consigo parar!

Por muito tempo depois guardei o vídeo que minha mãe fez da última vez que ele brincou, da última brincadeira que eu poderia ter brincado com ele e que, por estar muito ocupada com as minhas coisas, não fui, não abri a porta, não me despedi, não estava em casa.

Pelos dez dias que se sucederam eu fui incapaz de sair de casa, e quando fui, fui arrastada. Era Natal. Por muitos meses depois eu não pisei no banheiro onde seu pequeno coraçãozinho finalmente disse chega. Será que ele teria aguentado mais um pouco se, em seu momento de desespero, ele tivesse me visto o esperando através da porta aberta?

Por muitos meses eu encarava o banheiro de frente para o meu quarto e ele me encarava de volta. Dentro dele culpa, vergonha, remorso e a mais pura tristeza. Foi preciso muita água sanitária para limpar o sangue que eu sentia escorrendo em minhas mãos, mesmo sem sangue algum ter sido derramado.

Minha relação com a morte mudou depois desse dia. Ela, que sempre pairou sob o meu pensamento como algo tão distante e assustador, passou a assumir uma forma real até demais e dividir comigo meu corpo. Abusada como é, chegou e tomou todo o espaço para si. Todo o resto de mim foi despejado pouco a pouco e tudo de uma vez pela janela.

Pelo que, para mim, pareceu um bom tempo, ela esteve em todo lugar: no carro que, não virando o volante um pouquinho para a direita daqui há cinco metros, cairia do viaduto me levando com ele e então deixa eu mudar a música porque não pode ser Taylor Swift a trilha sonora do meu cadáver sendo encontrado; na tosse que parecia que nunca ia acabar por causa do engasgo com o primeiro gole quente demais de café e, considerando que minha mãe está viajando e eu estou sozinha por umas semanas, só vão me encontrar quando os vizinhos sentirem o fedor do meu corpo que gosto tanto de manter limpinho e cheiroso; na virada da chave na porta de casa lembrando que se passaram muitas horas desde a última vez que minha mãe mandou mensagem e a certeza de que ao abrir a porta eu a veria estatelada no meio do chão da sala.

Antes, tudo isso era conteúdo dos meus piores pesadelos, depois, se tornou tão realidade que talvez até mais realidade do que a realidade palpável que eu vivia, tendo dia após dia cada vez mais vida sendo consumida pelo buraco negro gigantesco que só fazia crescer dentro de mim. Oii, cheguei. Eu conversava normalmente com minha mãe enquanto ao mesmo tempo chorava desesperadamente ao encontrá-la dormindo sem pulso, chamando a vizinha, pedindo socorro.

A obcessão eventualmente passou com a ajuda da minha psicóloga e voltei a conseguir respirar sem medo de cada inspiração ser meu último ar, mas até hoje paro tudo o que eu estou fazendo quando alguém me chama e larguei os sets de filmagem porque, mesmo tendo também outros motivos, não soube lidar com o pânico de viver uma vida onde eu teria que constantemente deixar para trás o que me é mais importante no mundo.

Aprendi a ficar sempre de olho na minha imaginação fértil porque, dada uma pequena brecha, sei que ela me escapa e sei também para onde ela gosta de ir. Já perdi a conta de quantas vezes já vi as pessoas que eu amo morrerem em minha mente e sofri inconsolável por sentir em meu peito toda a dor da perda de quem se encontra firme e forte diante de mim, me olhando com olhos confusos por não entender por que eu choro tanto ao me despedir para ir logo ali.

Minha relação com a vida também nunca mais foi a mesma depois desse dia.

28 de novembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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