91 | tudo em nós conversa [não calamos a boca]

Faço sons aleatórios por motivo nenhum e me pego rindo à toa. É isso que é ser sem filtro então? Passeio pelos meus jardins e percebo quantas paredes existem entre eu e o mundo, paredes que eu já me acostumei tanto que nem sabia mais estarem ali. Obrigada por me fazer notá-las, acho que não preciso mais de tantas, talvez esteja na hora de eu me mudar ou pelo menos fazer uma bela de uma reforma.

Vi a programação do evento e pensei que gostaria de ir. Pensei ser algo que você também iria gostar muito e pensei que eu gostaria muito mais se eu fosse com você. Comentei sobre sutilmente. Te chamei para irmos juntos e percebi o quanto a experiência de levar pessoas a lugares me é tão desconhecida. Percebi que meu natural é comunicar minhas vontades como sugestões, muitas vezes tão sutis que nem eu mesma as pego.

Com uma mão carrego a bandeja do lanche e com a outra tento encher o copo com refrigerante, claramente fracassando. Você pega o copo e pergunta o que eu quero. Travo no lugar querendo mais do que tudo tirar o copo da sua mão e fazer tudo eu mesma. Pronto, você fala depois de me servir e carrega os copos até a mesa, como foi deixar alguém fazer alguma coisa por você? Estranho, muito estranho. Sinceramente? Até um pouco dolorido. Entrou em pane com o conceito de cooperação? Fico em silêncio por sei lá quanto tempo em absoluto choque com quantas camadas de entendimento sobre a minha vida inteira essa frase me fez acessar. É… Ainda vou precisar de um tempo até conseguir alinhar tudo isso em forma de pensamento.

Sabe que brincadeira é essa? Você me pergunta com os olhos cravados nos meus e eu sei sim, sei porque sinto, mas mesmo assim pergunto o que. Magnetismo. Aham, pois funcionou. Cravo os olhos de volta nos seus. Então por que você não tá se aproximando? Porque agora eu sei o que você tá fazendo. Resisto ao que sinto me puxar mais para perto com a minha tão familiar levantada de sobrancelhas e escudos. Invulnerável. Impenetrável. Sempre no limite da distância segura. Segura de que?

Me lembro do que falou sobre a primeira vez que me conheceu e como foi impossível se aproximar de mim. Ímã virado ao contrário. Desviro e te vejo chegando. Tá… Então atração não é sobre chamar, é sobre deixar que venha… Tá… Nunca tinha sentido isso de uma forma tão literal. É sobre baixar as defesas sem medo do que chama para si… Me parece o auge da autoconfiança e sempre fiz justamente o contrário. Sempre na defensiva. Sempre alerta. O símbolo da fragilidade tatuado em seu pescoço nunca fez tanto sentido. É preciso de muita coragem mesmo para sustentar a atenção que recai sobre si e muito mais ainda para chamar a atenção e deixar que ela ali permaneça. É um músculo que precisa ser fortalecido como todos os outros, senão tenta levantar o outro e o derruba. Ou se derruba. Ou caem todos no chão.

Performance, né?

Assistimos os números de circo e me maravilho com o quão incrível tudo é e mais ainda quando imagino como é estar dentro desses corpos que estão ali comunicando tanto sentimento que não consegue ser colocado em palavras através da sua arte enquanto esse tanto de gente assiste e vibra e aplaude e grita e penso em como no primeiro momento que alguém me enxerga de verdade já ativo todas as manobras evasivas que conheço para redirecionar a atenção de volta a quem me olha — E você, como tá? Quer fazer o que? Como se sente? O que pensa?

Me surpreendo com a facilidade com a qual você troca de lugar. Como assim? Como você vivencia todas as experiências através do outro, se colocando no lugar do outro. Não lembro das suas palavras exatas e queria lembrar, mas fiquemos com o que eu entendi do que me disse.

Foi incrível presenciar o momento em que todas as suas defesas se ativaram. Qual? Quando aquele cara chegou pra falar com você.

[Pois lá estávamos nós assistindo o espetáculo, rindo completamente entregues ao momento quando vejo na visão periférica alguém caminhando reto na minha direção. Alguém vai falar comigo. Alguém que não sei quem é. Não sei se ele chegou a me cutucar de alguma forma, mas me viro como se tivesse me puxado pelos cabelos e de forma tão abrupta que percebo na hora a tontura que causei em quem só chegava numa boa. Achei que fosse uma amiga minha, foi mal, mas já que vim até aqui para te cumprimentar deixa eu te cumprimentar. Ri, falei que tudo bem e o cumprimentei. Ele se afastou e as defesas se baixaram mais uma vez. Olho para o lado e te vejo me observar.]

É exaustivo. Imagino, deve ser mesmo. É como a voz que muda de tom dependendo de com quem fala.

Me lembro da aula de educação física no ensino fundamental quando eu, minúscula do jeito que era, fui colocada contra a minha vontade na defesa do time de handebol e a maior menina da turma veio correndo na minha direção como se eu fosse uma grande ameaça ao seu movimento. Não era. Não pude fazer nada enquanto ela se jogou sobre mim com toda a sua força e despencamos as duas. Todo o ar expulso de meus pulmões quando se chocaram com o chão duro e sujo e a incapacidade de os encher de novo pelo peso maior do que o dobro do meu me esmagando. Ela levantou como se nada tivesse acontecido enquanto eu continuei lá, o jogo continuou ao meu redor e eu continuei lá — e talvez em algum nível alguma parte de mim ainda esteja lá, estatelada no chão duro e sujo incapaz de respirar, talvez esteja na hora de eu voltar aquele ginásio, me estender a mão e me ajudar a levantar.

Mas enfim, é dessa sensação que me lembro quando vejo alguém me notar, alguém que agora que me viu e que pode muito bem correr em minha direção e me tirar todo o ar de dentro, me quebrar por inteiro. Nunca se sabe o tamanho da força do outro, mas sei muito bem das minhas fraquezas. Talvez eu já tenha crescido, mas ainda me sinto a menor da turma e o que aprendi a fazer foi fortalecer meu olhar como quem diz nem ouse tentar.

Te vejo rindo às gargalhadas e penso que bom que te convidei. Que bom que podemos compartilhar de algo que antes permaneceria só meu e de quem por conta própria acabasse ali também. Que bom dialogar com você também através das experiências que nos proporcionamos.

Em dois carros vamos até a próxima parada e em minha cabeça a conversa continua como se você ainda estivesse comigo. Nem liguei o som de tanto que meus pensamentos falam. Chegamos e confesso que até fico surpresa em te ver se aproximando quando te sinto o tempo todo ao meu lado.

Mais uma parada. Vamos em um carro só, deixa o seu aí, vamos no meu. Dirijo e me concentro na sensação de estar sendo a pessoa que conduz. É estranho, mas de um jeito bom, mas de um jeito estranho. Te vejo de canto de olho e gosto do jeito que me olha, não me lembro de um dia antes ter visto essa vista, pelo menos não por essa perspectiva. Mais cedo subi no murinho e procurei de enxergar com a exata diferença de altura com a qual você me vê. Diferente... Gosto da forma como a gente se reveza e se complementa.

Nem sempre consigo brincar direito desse negócio de ser corpo, mas sei sobre comunicação e quando finalmente entendo seu toque como linguagem ouço na ponta dos seus dedos tudo que me sussurra no ouvido, na palma da mão toda a certeza clara e pontuada e no seu beijo todo o amor que tento em vão definir com palavras. No olhar nos entendemos. Acho que esse tipo de conversa fica muito mais fácil quando a gente consegue se olhar no olho. Concordo. E quando nossos olhos se encontram a realidade inteira treme no lugar. E cresce.

Experimento traduzir o que sinto em corpo e me surpreendo com o quão melhor consigo me comunicar dessa forma. No final das contas essa é a linguagem original, né? Todo o resto é que deriva.

Acho engraçado, desnorteante e incrível como você faz com que eu perceba todos os meus filtros e como eles são desnecessários, o que faz todo o sentido quando penso que os filtros moram na cabeça e não é através dela que minha vivência de nós acontece.

Acho que tudo isso é para dizer que eu gosto desse nosso jeitinho tão especial de ser infinito.

4 de dezembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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