95 | nascidas da tempestade

Hoje o som é da chuva. Será que chove? Claro que chove. Vai chover. Choveu.

Continuo entendendo muita coisa e é mais ou menos por aí.
Continuo só entendendo muita coisa.

Não tô entendendo é nada.

Lá longe se acendeu alguma coisa, ainda não sei o quê.
Algo também se apagou.
Ainda outra pisca.

O céu. A noite. A chuva. O vento gelado no rosto novinho em folha.

Encantado com a paisagem que vê pela entrada da caverna, fresco e tão antigo que até hoje só saiu à noite, pouco a pouco bichinho selvagem se aventura um passo de cada vez e esquece de se esconder. Na penumbra encontra olhos também ariscos e juntos hesitam no lugar. Sem movimentos bruscos. Tão fresco e tão antigo que foi enterrado vivo muito antes da própria linguagem, nunca aprendeu a falar e agora sob as palavras que o iluminam feito holofote paralisa na necessidade de correr, e treme.

Saí de mim e me deixei livre para ocupar meu próprio corpo sem minha presença, mas um peteleco no focinho me traz de volta ao lugar. Uma pergunta me atinge feito raio, subitamente ciente de todo o tempo que passei fora de casa e sem saber o que vou encontrar quando abrir a porta. Alguém mexeu nas minhas coisas e não fui eu, quem foi?

Será que fiquei completamente louca?
Será que eu estou parecendo uma completa louca?
É assim que a insanidade se parece vista de dentro?
É insanidade que você vê me olhando de fora?

Alguns silêncios são ausência de pensamentos, outros excesso.
Esse em particular é paradoxo.

Espera aí, deixa eu fazer um negócio.

Nada a ver esse cabelo, levanta tudo, bagunça. Isso, por aí.

Rosto novinho em folha se encontra no espelho e gosta do que vê.

Só precisava ver e viu.

Eu vi também.

É um daqueles momentos. Daqueles que lá ao longe ainda vão ser vistos com tanta nitidez que poderiam ainda estar acontecendo, daqueles que marcam começos e meios e fins e que neles mesmos são histórias inteiras, daqueles evocados em dias nostálgicos, lembrados com abraços, lágrimas e risos.

O dia em que a vi pela primeira vez.

As mechas escuras emolduram os olhos escuros que tudo vêem. O vestido improvisado feito sob medida. Só faltaram as botas.

Não faltou absolutamente nada.

Não a recebi com a elegância que queria, nem com o encanto que merecia. Petrifiquei entre tantas eus buscando a que queria te apresentar, mas não a encontrei em casa, talvez ela já tenha tirado a maquiagem e ido dormir. Não consegui sustentar tanta presença e perdi o fôlego.

O estranhamento dentro de mim me faz perceber o quão novo é tudo isso, nunca estive desse lado e me perco tentando descobrir o que fazer. Tento transmitir segurança e mal me aguento em pé. Ela busca por confirmação em meus olhos e sinceramente não sei o que encontra, espero que amor.

Espero não a ter assustado.
Espero não ter sido desajeitada demais.
Espero a encontrar de novo.
Espero não ter falado demais e nem de menos.
Espero não estar falando demais agora.
Acho que eu deveria só parar de pensar tanto.
Espero que numa próxima eu consiga pensar menos.

Tateamos o chão sem saber ao certo onde pisar,
parece que o jeito é continuar dançando.

8 de dezembro de 2022

--

--

pelo visto esse é o meu diário

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store