98 | passou mesmo ou é só o tempo que tá passando?

Eu sei que eu não tô falando nada.

Minha especialidade, falar pra sempre sem chegar a lugar algum.

A questão é que existe o não falar sobre que simplesmente não vem à tona porque não precisa e existe o não falar sobre que precisa escapar por algum lugar porque não se aguenta mais ficando por dentro.

O tempo passa e leva com ele muito, mas não leva tudo e o que fica fica cada vez mais pesado. Tem gente que arrasta a mesma coisa por anos, tem gente que vai só acumulando e aumentando o peso como se a vida fosse academia e sei lá, talvez seja mesmo, eu não saberia dizer. O que me leva ao meu ponto: sou pequena, fraca e com resistência pior que aquele chuveiro que você sabe exatamente qual, não aguento carregar muita coisa não, me surpreende que eu até tenha chegado até aqui trazendo mais que meu próprio corpo. Resmungo igual criança, bato o pé e faço bico, giro no lugar gritando manhêêêêêê. Não aguento maaaaaaaais. Choro, abro um olho só pra ver se ela está me olhando e repito tudo só que dessa vez mais alto.

Chega num ponto que choramingo tanto que balbucio frases ininteligíveis e minha mente—porque é óbvio que como sempre eu estou falando dos meus processos internos — me olha aturdida tentando desvendar as baboseiras que saem cuspidas da minha boca de qualquer jeito. O que que foi? O que que aconteceu? O que é que você quer? Pelo amor de deus o que é que você quer?

O que é que eu quero, pelo amor de deus? O que é que eu quero?

Agora é minha mente que sapateia ao meu redor, balbuciando essas perguntas vez e vez de novo sacudindo meu coração — porque era dessa parte de mim que eu falava, no caso—cada vez mais em desespero e deixando cada vez mais ela mesma desesperada.

Algo acontece do outro lado da rua, uma movimentação nova chama tanta atenção que interrompe toda essa balbúrdia e por um tempo ficam ali, mente focada e coração olhando meio prestando atenção meio distraído limpando o rosto molhado de lágrima e catarro. Um tempo passa até que a distração vá embora. Mente olha pra coração. Coração olha pra mente.

Não ouse, diz ela. Ele começa a tremer o lábio e as lágrimas começam a brotar no olho. O nascimento de um novo surto se apresenta enquanto mente já começa a espiralar em antecipação. Não, não, não, pera aí… Ela pensa e pensa e pensa. OLHA LÁ, aponta em qualquer direção e espia de canto de olho pra ver se coração caiu nessa. Ele olha numa primeira vez, na segunda já demora, na terceira entendeu que é caô.

Coração é criança, bobo e inocente, mas se tem uma coisa que ele não é, é idiota. Ele vê o esforço todo que a mente faz pra tentar impedi-lo de chorar e se comove. Mesmo que não entenda o porque de sentir ser errado, entende que deve ser mesmo porque afinal, senão a mente não se daria o trabalho. Ela que sabe das coisas no final das contas, não é mesmo? — Ele infelizmente ainda não sabe que isso é a mais pura mentira.

O tempo vai passando e eles ainda nessa. Mente cada vez mais ciente do quanto estão atrasados pra chegar a algum lugar e coração sem entender o que é que isso tem a ver com ele.

Eventualmente ele começa a enxergar o desespero dela como nada mais do que isso. Desespero. Entende que ela surta porque é ele quem sabe o caminho e sem ele puxando ela se sente perdida, então o pressiona por respostas, mas primeiro ele não consegue decidir nada enquanto chora e segundo que quanto mais ela grita mais ainda ele chora. E mais alto. E esperneia. E deita no chão. E rola. E se recusa a sair do lugar.

À essa altura do campeonato ninguém mais lembra o que foi que começou tudo isso, mas cá estamos do mesmo jeito.

Ah, é. Foi o coração cansado de carregar o que parou no tempo.

Exausto, ele bola uma estratégia. Chega bem pertinho da mente e fala que tá bom, escolhe você então e deixa que ela vagueie ao seu redor ponderando caminhos e calculando rotas porque assim pelo menos ela se sente útil e enche menos o saco, mas em compensação também não cala a boca. No meio desse falatório todo ele encontra um canto escuro, coloca um fone de ouvido, senta no chão, abraça os joelhos e chora tudo o que tem pra chorar. Em algum momento as lágrimas vão acabar e o soluço vai se acalmar e quando finalmente se sentir vazio vai levantar de pé e olhar ao redor até que um sorriso surja em seu rosto e aponte o caminho, é por ali. Ele busca a mente que na sua perambulação foi parar lá longe, a pega pela mão e fala já sei, vem.

E vão.

11 de dezembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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