a falta que a chuva faz

Achei que o caminho era por dentro e me esqueci que o por dentro já passa por você. Precisei me afastar pra me enxergar com clareza e me esqueci que a a luz estava nas suas mãos. No escuro me senti, me explorei e me perdi, mas agora acho que já consigo me perder também de dia.

Me afastei de você pra tentar me salvar e esqueci que só me salvo me afogando. Te fechei pra fora pra ouvir o silêncio e preenchi o silêncio falando. Falei comigo pra chegar nas respostas e só me enchi mais de perguntas ainda. Te mantive longe pra poder me sentir e por tanto tempo estivemos tão, mas tão perto que acabei me esquecendo de como era ser eu antes de você.

A árvore, com suas cascas grossas e ásperas parece seca por fora, mas dentro corre seiva espessa que só sai quando se arranca uma lasca. Na beira do rio as raízes se misturam e bebem da água que bebe delas. Água. Como cerrado vivo períodos de seca até me queimar inteira. Água mole em pedra dura né, só que essa não fura, derrete, derrama, dissolve, dilui. Esqueci que a pedra sou eu e tentei me derreter me batendo em mim. Pois pedra dura em pedra dura, tudo que fiz foi ascender faísca e entrei em combustão. Chove em mim, por favor. Chove em mim pra que eu também possa chover.

Lembrei de como era ser eu antes de você e do quão difícil é viver represa. Logo eu, que tanto choro, não consegui mais chorar. Me preocupei tanto em destruir minhas muralhas pra viver em campo aberto e me fiz cerco até quase morrer de sede. A pele endurece no deserto, vira casca, vira crosta, é o que precisa ser pra sobreviver, um cacto cheio de espinhos. Nada mais somos do que também fenômenos da natureza. Eu, me parece agora, sou tempestade de areia.

Já tem meses que não chove. Passa que a gente nem sente, acostuma. Esquece que pouco a pouco a umidade do ar diminui e vai reclamando um dia após o outro sobre a pele que insiste em rachar, mesmo se banhando de hidratante. Bebe água. Mais. Ainda é pouco. Liga o umidificador. Se vira como pode enquanto espera pacientemente os tantos meses que ainda faltam pra chover. Lembra ainda que as primeiras são ácidas e corroem depois de tanta poluição acumulada e espera pacientemente os tantos meses que ainda faltam pra chover.

Se esquece do que é um guarda-chuva, do que é fechar as janelas antes de sair de casa, do que é sair correndo pra recolher as roupas do varal. Se esquece do que é a água na pele, a pele que a cada dia que passa mais vira escudo. Se esquece do que é se encharcar completamente e do nada se ver com a roupa grudada no corpo e o cabelo escorrendo pingando no olho. Se esquece do que é se escorrer.

Difícil ser cerrado. Precisei me afastar da beira do rio pra lembrar de como é me ser e lembrei que eu por mim sou seca. Qualquer resquício evapora até o ponto que se transforma em tempestade. Seis meses de chuva, seis meses de seca, indo de um extremo ao outro e mantendo a temperatura amena. Não é bom e nem ruim, simplesmente é o que é. É todo o rico ecossistema que precisa ser.

Ontem você veio me visitar e me fez chuviscar. Lembrei que é você que traz a chuva leve de verão, aquela que refresca, molha, cura, faz arco-íris e vai embora. Em mim a chuva só se cria à noite, anuncia a sua chegada com trovões e ilumina o céu escuro com eletricidade. A água cai forte e derruba árvore, corta a luz e bota medo em quem não se rende a ela. É a chuva que chove a noite inteira e só se lida com o estrago no dia seguinte. É a chuva que não tem nada que se possa fazer, só deixar chover e esperar passar.

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pelo visto esse é o meu diário

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