11 | a gente

Acordar às nove da manhã pra ficarmos até as dez e pouco deitados ouvindo o soneca tocar de oito em oito minutos. Se não é o meu despertador é o seu e já faz um tempo que não sei mais qual é qual. Sei que tendo a ser otimista demais e superestimo minha capacidade falando que vou acordar às sete amanhã e fazer um café e comer uma frutinha e ler na sacada pegando um solzinho e não interessa que já são três e meia da madrugada porque eu não são as oito horas de sono que me fazem acordar bem e sim ter algo certo pra fazer. Você ri, quero ver. Você já é fiel às suas oito horas de sono, pelo menos sempre que dá.

Também não sei mais qual pé é qual quando começamos com o famoso enrosco de encaixes de pernas em sequência, um mais estranhamente perfeito que o outro criando formas geometricamente impossíveis e que um dia ainda vou registrar em escultura. Tento mudar a posição e descubro que o pé direito que eu tentava mexer era o seu esquerdo. Ué, cadê o meu então? Ah, tá, achei. Tava ali escondido atrás do seu joelho, agora só tem que descobrir como desenroscar. Será que quero mesmo?

Corto o seu cabelo. Pinto o seu cabelo. Encontro sem querer o seu alargador perdido durante a noite, ele sempre dá um jeito de parar no meio das minhas costelas. Corto o seu cabelo de novo, agora só mais um retoque no raspado pra dar o tchananãna. Fazemos caretas na frente do espelho rindo, somos iguaizinhos mesmo, como é que pode? Corto um abacaxi pra gente, já bebeu água hoje? Tem que beber mais água, tá muito seco. Você viu que tá em estado de alerta pela baixa-umidade? Tem que beber mais água, bem. A gente precisa lembrar de deixar o umidificador sempre ligado.

Hoje tem que almoçar mais cedo porque você vai sair. Que que vai ser o almoço de hoje? O que que tem na geladeira? Vai ser arroz ou massa? Arroz. Tem tofu. Show. Você vai lavando a louça enquanto eu começo a preparar, depois rouba minha tábua e minha faca que eu ainda não tinha terminado de usar. Me passa o azeite, por favor? Bota um pouquinho mais aqui pra mim também? Passa o sal. Mais pimenta? Mais pimenta. Dá licença. Observo enquanto você corta o alho-poró do jeito mais otimizado e cuidadosamente aperfeiçoado ao longo dos anos. Nessa casa alho-poró é deus.

Tô saindo. Beijo. Beijo. Divirta-se. Aproveita. Te amo. Te amo. Cadê meu negócio? Que negócio? O… O negóciACHEI! Tá bom agora tô indo. Tá bom, beijo. Beijo. AH, PERA, me faz um favor? Fala. Pega meu celular ali no quarto? Tá bom. Beijo. Beijo. Te amo. Divirta-se. Aproveita. Até depois. Até! Tchau. E se foi. Espero um pouco pra ver se foi mesmo. Às vezes esqueceu mais alguma coisa, hoje não, hoje foi mesmo.

BEM! BEEEEEM. Bem? Bem? BEM?! Oi. Ah, você tá aí. Tô aqui! Cheguei. E como foi lá? Foi bom! E começa a narração em detalhes dos eventos do dia. Como é bom voltar pra casa. Amo nossa casinha. Você se larga na cadeira da sacada e derrete um sorriso cansado no rosto. Hoje não foi assim, hoje eu estava ocupada quando você chegou e só nos demos oi depois enquanto eu pegava o lanche que você trouxe da rua pra mim. Ufa! Obrigada, putz, arrasou. A última palavra falada de boca cheia seguida de um ops porque uma gota enorme de molho caiu na minha blusa como sempre. Recolho meu rastro de farelos pra manter tudo limpo como você deixou na sua faxinada caprichada de ontem.

Começo a ler e você chega e se senta do meu lado. Marco o ponto que parei com o dedo e olho pra você esperando pra ver o que você veio falar, mas permanece em silêncio porque parece que só veio ficar perto mesmo. Continuo a ler. Nossa, sabe o que eu tava pensando? Ponho o marca-páginas no lugar e fecho o livro. Me sento virada pra você e começamos mais uma conversa sem começo nem final sobre tudo ao mesmo tempo.

Faço minhas coisas e fico pronta pra dormir. Sento na cama e começo a escrever esse texto aqui ouvindo o som da sua guitarra no quarto ao lado. Enquanto eu falava sobre o enrosco de pernas a guitarra para, você chega e se senta perto de mim. Espero pra ver se vai falar alguma coisa, mas parece que só veio ficar perto mesmo. Espero mais um pouco. Fecho o computador e me viro pra você. Começamos a conversar sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Quando percebo estamos em mais um enrosco de pernas campeão, rio. Falamos sobre amanhã, sobre depois de amanhã, sobre nossos planos, sobre a sua tranquilidade nesse momento tão importante e o quanto isso é um absurdo, sobre como a vida é incrível, sobre como a gente é incrível, sobre como esse final de semana vai ser incrível. Me dá um abraço? Te dou um abraço.

Nossa bem, sabe o que você podia fazer pra mim? Uma massagenzinha aqui nas minhas costas porque ai, tá doendoai. Isso, bem aí, ai. Rio. Tá bom, deita aí. Não po, deita direito. Direito como? Cê tá todo torto, tem que ficar reto uai. Você ri. Te puxo pelas pernas e te deixo reto. Tira o braço de baixo. Isso. Nooooooooooooossa. Noooooossa, bem aí. Ufa, bem. Ufa, amo suas mãozinhas.

Que hora você vai acordar? Me acorda também. Tá. Boa noite, bem. Dorme bem. Dorme bem, bem, amanhã vai ser incrível. Você fecha a cortina e se deita na direção certa da cama agora. Sento escorada na parede e abro o computador de novo. Vai escrever ainda? Aham. Apoio os pés nas suas costas. Tá bom, boa noite, bem. Boa noite. Te amo. Te amo.

E agora que terminei vou fechar aqui e me enroscar no seu abraço.

15 de setembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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