A Patética Nuvem

Quando eu era criança fiz parte de uma apresentação da turma onde cada dupla representava uma profissão. Eu e Bruno éramos os artistas e a nossa função era ficar no canto do palco pintando alguma coisa em telas com o figurino sujo de tinta até o momento final, onde todas as crianças se juntavam no meio e giravam de mãos dadas. Simples até demais.

A peça começou e lá fui eu pro meu cavalete no cantinho. O que era pra pintar? Qualquer coisa que eu quisesse. Eu quis pintar uma nuvem. O que ela ia virar eu não sabia ainda, só queria saber dela, grande, fofa e azul. Lentamente fiz o contorno, passando com cuidado o pincel cheio de tinta por cima das bordas invisíveis que eu já via. Feita a estrutura, chegou a hora do recheio, de preencher aquela forma e enche-la de vida e cor. O pincel acariciava a tela deixando rastros de azul por onde passava, e, fazendo isso, acariciava também a minha alma. Fiquei tão envolvida que até esqueci que atrás de mim tinha toda uma platéia assistindo. Me deixei consumir pela nuvem e no mundo inteiro só existíamos nós duas. Nós, o pincel e a tinta.

Perdi a noção do tempo e em algum momento olhei para o lado e me vi sozinha. Olhei para o outro e vi meu maior medo naquele momento: a turma inteira já estava dançando de mãos dadas num círculo, inclusive o Bruno. Só faltava eu.

Tenho a vaga lembrança da mãozinha suja de tinta dele se soltar da que segurava e ser estendida para mim. Mas quando penso nessa noite lembro só do choque, do choro e da nuvem. Minha mãe lembra até hoje do quanto eu fiquei inconsolável enquanto ela repetia sem parar que "ninguém reparou", "você estava tão linda lá em cima" e "pareceu que foi de propósito". Nada adiantou.

Eu errei. Eu tinha uma missão e fracassei. Era só pintar até a hora certa e depois fazer o que todo mundo estava fazendo, mas nem disso eu fui capaz. Maldita nuvem que me distraiu. Maldita concentração que fez com que eu não ouvisse a deixa da música. Maldito Bruno que saiu sem me puxar. Deu tudo errado. Eu fiz tudo errado.

Passei o resto da noite sentada no colo da minha mãe chorando. Ela assistia as outras turmas se apresentarem. Eu assistia o meu cavalete esquecido no canto do palco com uma patética nuvem azul inacabada. Ao lado dele, um segundo com um quadro todo cheio e colorido. Porque não só o Bruno ficou atento ao sinal, como ele ainda conseguiu preencher o quadro todo no tempo que eu gastei naquela nuvem.

Ridícula, patética nuvem. Grande, azul e inacabada.

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pelo visto esse é o meu diário

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