9 | a vida que fiz pra mim

Não cresci cercada de arte. Não tive pessoas próximas que me apresentaram à sua forma única de se expressar no mundo e acho que foi por isso que sempre me senti muito deslocada de tudo. Sempre de fora, sempre diferente. Aprendi a manter pra mim o que era meu e construí camadas e mais camadas de armadilhas ao redor de mim pra que eu nunca destoasse do resto.

Não tive um tio que fez das suas bandas preferidas as minhas, não tive ninguém que tocava um instrumento em casa, não tive quem observar criar, não fui levada a espetáculos ou shows ou exposições e não estou reclamando de falta porque o que eu sempre tive em abundância foram livros. Para ler nunca me faltaram incentivos e é por isso que uso as palavras como instrumento, pincel, adaga e varinha mágica.

Minha mãe registrou minha infância em álbuns e mais álbuns e fitas e mais fitas e talvez dela tenha vindo o lado de mim que se atraiu pela câmera. Meu pai subia em palcos pra discursar e talvez dele tenha vindo a minha expansividade. Minha irmã sempre amou estudar e talvez dela tenha vindo a minha sede de conhecimento. Fiz aula de dança, teatro e violão, mas parei por não me sentir pertencer.

Não cresci cercada de arte, mas desde criança era chamada de artista e sempre achei ser só porque eu era diferente, esquisita, distraída, bagunçada. Hoje olho ao redor para a vida que eu construí com as minhas próprias mãos, cercada só de quem foi escolhido pelos meus dedos criteriosos e me vejo cercada de arte.

Me enrosquei toda nela sem nem perceber, quando vi é ela que respiro. De um jeito ou de outro, por um lado ou pelo outro fui chegando aqui. Hoje entendo que não é porque eu sou diferente, é porque eu sou quem eu sou mesmo. Me cerco de quem me traz aquilo ao que eu não fui exposta, de quem me abastece daquilo que eu precisei a minha vida toda e dei meu jeito de encontrar através das pessoas com quem me encontrei.

Não cresci cercada de arte como as pessoas que agora me cercam, mas elas compartilham comigo o que a elas é natural e eu as recebo do outro lado, sedenta e pronta para retribuir com tudo o que eu tive livre acesso e talvez elas não. Vejo que, não fosse assim, talvez até com a arte eu tivesse me revoltado por não querer fazer o que esperassem de mim. Precisei abrir meu próprio caminho pra saber que estou aqui porque eu quero, porque eu me trouxe com meus próprios pés.

A vida é feita de trocas e por muito tempo me fechei pro mundo, talvez porque o mundo que eu via não fosse o meu. Hoje não me sinto mais diferente, destoante, isolada, errada, me sinto uma aprendiz que ainda não sabe muito bem o que faz, mas absorve tudo o que pode até que em breve crie da forma que quiser. Hoje me sinto igual enquanto sou única e agradeço ao meu eu do passado por sempre ter se incomodado demais pra se acomodar, que eu continue sempre assim.

13 de setembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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