18 | chá de boldo

Não tinha nada pra fazer de almoço em casa, precisei ir ao mercado. Enrolei por mais de uma hora porque convenhamos… Preguiça. Sair de casa nesse calor? Frio? Seco? Chuvoso? Tanto faz o clima, o chato é de sair do conforto das paredes e me submeter aos estímulos do mundo. No segundo que fechei a porta atrás de mim já estava disposta. Desci as escadas saltitando e fui andando com a ecobag na mão e música na cabeça.

Caminhar é bom. Sentir o vento no rosto é bom. Passear pelos corredores e perceber produtos que eu nunca tinha reparado é bom. Conversar com o atendente do caixa é bom. Voltar pra casa num chuvisco é bom. Carregar a sacola pesada é bom. Chegar em casa e guardar as compras e lavar as mãos e lavar os pés porque fui de chinelo e pisei no molhado e sentar na cadeira e abrir a agenda e pensar no próximo passo e socorro preciso lembrar de respirar. Riscar fazer compras da lista é bom.

Quando a vida fica muito cheia e tem coisa pra fazer todo dia a gente só vai indo e indo e indo e esquece que tem partes de nós que só aparecem no suspiro. Ou melhor, depois do suspiro e depois até de um certo tempo de tédio. Tenho uma amiga que não aguenta ficar um segundo parada e que se ocupa de absolutamente tudo e qualquer coisa, eu sou o oposto. Costumo surtar quando as coisas começam a se acumular e o tempo entre uma e outra começa a diminuir e diminuir e diminuir até que não sobre mais espaço pra existir. Começo a hiperventilar e sapatear tal qual uma criança, as lágrimas brotam nos olhos e as palavras se entortam na garganta.

Nesse momento aprecio o silêncio macio e aveludado de uma casa vazia. Ouço um piado que vem de fora em intervalos regulares, será que é uma coruja? Preciso aprender mais sobre aves, gosto delas. Ouço a pressão constante da geladeira que quase não se escuta até que estale alto e quase me mate do coração. Ouço os carros que andam na rodovia aqui perto, um depois do outro, um mais rápido que o outro e de vez em quando uma moto. Ouço meu tectectec no teclado que acelera constantemente e freia de súbito quando a mente dá um tranco. Normalmente ouço músicas instrumentais pra escrever, mas nesse momento quis aproveitar o silêncio macio e aveludado de uma casa vazia, minha cabeça agradece. Começo a falar comigo mesma, mas logo paro, até minha própria voz invade esse espaço.

Sinto a cama sob mim, sinto o edredom sobre mim, sinto o computador esquentando no meu colo e o chá de boldo girando em minha boca. Um dos gatos acordou apenas o suficiente pra mudar de posição, olhar pra mim e voltar a dormir. Ando bebendo pouco chá. Por que? Sempre amei tomar chá. É preguiça de fazer? O que que é? Por que? Não sei. Vou voltar a beber mais chá, especialmente de boldo, eu amo chá de boldo. Catei umas folhas do pé que mora há anos na sacada e percebi quanto tempo fazia que eu não parava pra sentir o seu cheiro. É bom cheiro de boldo, é bom o gosto também. É isso, que bom que me lembrei, vou voltar a tomar mais chá de boldo.

22 de setembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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