chá de sálvia

De olhos fechados bebo meu chá de sálvia e aponto para o Sol com o mindinho. Não sei onde ele está, mas sinto seu calor bem na pontinha. Estou sentada, mas em pé. Como pode os dois ao mesmo tempo senão na diagonal? Quase caio para a frente, mas o Sol me segura pelo mindinho e me equilibra de volta no lugar. Converso com minha mãe na minha cabeça e sei que de longe ela me responde, somos muito amigas afinal de contas, nos conhecemos muito bem, é óbvio que iríamos conversar. Não caminho o caminho, o caminho que me caminha. Para onde vamos? “Ora, para cima” responde minha mãe. Do alto não mais caminho, vôo. O vento em meus cabelos ondula como ondas no mar, mas ao invés de sempre vir na mesma direção, me esparrama para todo lado. A altura se preenche de água e me vejo envolta, submersa, ainda presa ao Sol pelo mindinho, ele me deixa saber qual cima é em cima. Debaixo d’água não ouço nada, nem minha mãe, mas sei que em algum lugar ela está parada à frente da janela da cozinha, cortando uma fruta de lanche. Na cabeça dela toca uma música alegre e ela se distrai. Na minha cabeça toca o silêncio ensurdecedor do fundo do mar.

Sozinha com o Sol, me afogo no chá de Sálvia.

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pelo visto esse é o meu diário

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