Com lágrimas se fazem paredes

Se todos somos feitos de acontecimentos e momentos, nada mais justo que se dar ao trabalho de lembrar.

Desde o começo da Pandemia com p maiúsculo, me vi num processo de contração e expansão, me reencontrando e me perdendo incontáveis vezes dentro de mim, andando no labirinto interior sem me preocupar em buscar uma saída, mas sim em conhecer timtim por timtim cada pedaço de parede ali em pé. Algumas já vieram embutidas, construídas pelas tantas mãos que construíram também as minhas. Outras foram deixadas, por ou sem querer, pelas várias pessoas que atravessaram a minha vida até esse momento, umas com carinho, umas com desleixo, outras meio-termo. A maior parte delas, porém, foram essas mesmas mãos que escrevem que construíram. Muitas sem planejamento nenhum, sem olhar para o todo, sem tentar, sem querer, acidentalmente bloqueando ou direcionando um caminho entre tantos. Umas são mais altas que outras, mais duras, mais grossas. Umas são tão finas e macias que na verdade nem paredes são, mas cortinas. Tanta diversidade e tanta esquisitice construída aqui dentro, e eu, andando, vou passando a mão por elas, ouvindo pela ponta dos dedos a sabedoria contida nas texturas.

Num desses passeios, depois de virar algumas vezes à direita, me encontrei numa clareira. Uma clareira que eu não via desde criança e que na verdade era um rio. Lá no meio havia um grupo de crianças, ou melhor, havia um grupo de pré-adolescentes e uma criança. A criança era eu, não só a irmã caçula, mas também a prima, a última na longa escadinha da geração. Atrasada, eu queria fazer parte, mas já era tarde demais, eu ainda não entendia os assuntos e as fofocas. Aquele não era o meu grupo, mas eu, pequena e teimosa, nadava cachorrinho no mesmo lugar, ofegante e exausta, escolhendo ignorar que o grupo foi até o fundo onde não me dava pé justamente para eu não estar lá.

Hoje, os três anos de diferença entre eu e minha irmã não são nada, mas na época ela parecia tão grande e tão maior. Ela, que sempre esteve cercada de outras crianças, que todo mundo conhecia e amava, era tão melhor que eu. Eu, com esses três longos anos a menos, era tímida, quieta e mais assistia de longe do que me misturava. Eu não era eu, eu era a irmã dela. Era assim que todo mundo me conhecia. Eu, que tinha tanta dificuldade em me abrir pra novas pessoas e me soltar, andava nos calcanhares dela na esperança de me misturar. E ela até me incluía, me levava junto e me permitia estar presente. Mas aquele não era o meu grupo e todo mundo sabia. Eu não pertencia, eu era permitida.

Voltei a mim e percebi que a clareira não era uma clareira, muito menos era um rio. Era um muro de cimento bruto cheio de frases rabiscadas pelas pontas das pedras britas que ocupavam o chão. Frases transcritas de cochichos captados ou imaginados pelos meus ouvidos e guardados no meu inconsciente. Frases que comprovam que eu nunca fui integrante daqueles espaços, que mesmo que me me incluíssem, todo mundo sabia que eu estava ali por caridade, por ser a irmã mais nova que quer ir junto. Eu era sempre café com leite, mesmo quando, oficialmente, não era. Eu não contava, não de verdade. Claro que era por eu ser nova demais para saber brincar ou participar, mas a minha cabecinha da época não entendia dessa forma, ela se via desimportante.

Lendo as mensagens do muro me peguei chorando e descobri que aquilo que eu já havia há muito esquecido na verdade nunca tinha ido embora, que eram essas as mensagens subliminares que sempre ficaram à espreita, pertinho da superfície, prontas para atacar sempre que eu, hoje, me vejo fazendo parte de algo. Eu, que ao longo da vida aprendi a achar os meus próprios grupos, ainda me pego questionando se na verdade fui convidada a estar ali por pena, se sou mesmo integrante ou novamente só forcei a minha estada. Eu, que racionalmente sei que não me chamariam se não gostassem de mim, no fundo no fundo sempre me questiono se é de verdade, se não sou incluída como um favor, se ainda sou, de alguma forma, café com leite. Eu, que cresci com dor no pescoço de olhar para cima, para as pessoas mais altas que eu, hoje me sinto sempre menor.

Lendo todas as mensagens rabiscadas e gravadas, chorei. Chorei e me permiti chorar, me permiti doer, me permiti lembrar. Sentindo as lágrimas escorrerem dos meus olhos para o meu rosto, e do meu rosto para o chão, pensei em testar uma coisa. Segurei as lágrimas nas mãos e esfreguei os sussurros até só ver muro. Com a água salgada e dolorida que se acumulou dentro de mim por todos esses anos sem eu saber, apaguei do meu inconsciente as mensagens que ressoavam baixinho demais para eu ouvir, mas não tanto para que eu não pudesse as sentir.

Talvez demore um tempo até eu poder dizer que me curei, mas agora toda vez que ouvir o silêncio onde antes havia cochichos de condescendência vou lembrar não deles, mas dos bons momentos que passei com os amigos da minha irmã. Vou me lembrar deles e entender que talvez foram essas oportunidades de ver de dentro sem fazer parte que me ensinaram a fazer parte estando do lado de dentro. Me sento no muro de cimento agora limpo, balançando os pés descalços e derramando as lágrimas de alívio que terminam de lavar também a mim. Passei tanto tempo olhando para cima que aprendi a amar o céu.

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pelo visto esse é o meu diário

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