17 | migalhas de caos querendo sair

Fui pra te dar um colo e quem recebeu colo fui eu. Me desculpa pelo caos, repito cinquenta milhões de vezes, obrigada por tudo. Você sorri e me acolhe como quem nasceu pra isso, mas hoje não era pra ser sobre mim. Eu tô bem, repito, tá tudo certo. Não sei bem o que é que me faz desabar ao mesmo tempo que sei exatamente: é o acúmulo. Acúmulo de que? Folgada. Acúmulo de gente, de vida, de casa, de mim, de você, de todes nós, de tudo isso e mais um pouco.

Poucas pessoas já me enxergaram assim e é desse jeito que gosto de manter, mas você vai pouco a pouco retirando minhas armaduras enquanto eu luto sozinha em frente ao espelho e me faz perceber que minha guerra é só comigo. Tá tudo bem, você repete, pode soltar. Penso que talvez nunca tenha me soltado cem porcento e nem faço a menor ideia de como seria isso. Medo do que? Você pergunta. Não é medo, é receio.

Deixo a tormenta entrar e sacudir tudo de dentro pra fora. Em outros momentos eu só teria ido embora, mas dessa vez já decidi ficar e ficando não me resta muita escolha, ou chora ou se fecha e já entendi que por aqui parede é véu. Se quiser esconder alguma coisa é melhor nem vir, você me olha nos olhos e me vejo em seus olhos patinando no mesmo lugar. Você sabe, você simplesmente sabe e o que me quebra é que meu normal nesse caso seria sentir raiva, mas não, só sinto conforto nesse espaço que me é ofertado, não me importo de você saber, às vezes quero mesmo é que saiba, mesmo sem querer. Fui pra te dar colo e quem mais precisou fui eu, mas saiba que, sempre que eu puder, o meu colo é também seu.

Acho incrível essa sua capacidade de entrar no meu porão e colocar tudo no lugar, mesmo sem encostar em nada. Achei que eu sabia onde guardar minhas coisas e você me mostra que não é em caixas dentro de armários no escuro que elas devem ficar, mas sim na prateleira da sala em frente ao sofá onde fica fácil de ver e lembrar de cuidar.

Tudo o que eu achei que eu soubesse sobre mim está sendo colocado à prova e isso é tão poderoso e transformador quanto assustador. Tem horas que marcho a passos largos pronta a enfrentar o que vier, tem horas que me encolho num canto por não saber mais nem me colocar em pé.

Me desculpa pelo caos, repito. Você me abraça e diz que ele é bem-vindo. Mesmo assim me agonio, ele não gosta muito de ser visto.

21 de setembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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