28 | o amor que amamos e deixamos amar

Esqueci o que não me permito lembrar. Tenho tanto medo de partes de mim que as escondo onde a luz nunca chega, onde a noite é total e tudo o que ficou escondido por tanto tempo nas sombras finalmente pode sair. Adestrada a nunca me perder de vista, a ter tanto receio de tirar os olhos de cima de mim e baixar a guarda que quando o faço já recuo instintivamente esperando a pancada.

Mas dessa vez a pancada não veio.

Será que estou… Segura? Não pode ser. Me encolho esperando a consequência que nunca chega e é só nesse espaço que se cria ao meu redor que consigo compreender as dimensões de todos os meus traumas, de toda a tensão acumulada por anos de impulsos contidos. As mãos já petrificadas na mesma posição por me segurar tão rigidamente que se tornaram elas também rígidas, grosseiras, inertes, incapazes de se abrir. Por um segundo me distraí e as rédeas escaparam por entre os dedos que de tão duros não conseguiram se mover rápido o suficiente para segurar e pronto, corri desenfreada pela liberdade acidental talvez até tentando ir tão rápido que me derrubasse do meu próprio cavalo, só para não correr o risco de me prender de novo.

Entendi. Entendi o que você quis me dizer ao me entender. Entendi o desespero em seus olhos ao perceber o desespero nos meus. Entendi a sua passividade ao entender a minha. Entendi o seu pânico ao sentir o meu. Entendi a sua busca pela liberdade ao precisar buscar a minha. Entendi. Agradeço por também me entender.

É um caminho diferente esse que caminhamos. Ninguém sabe para onde vai e desistimos de tentar entender, apenas tentamos fazer da jornada um passeio agradável e não uma obrigação inútil. Olho para trás e nem acredito que estou aqui, mas estou e estamos todes juntes nessa loucura que é a vida. Não faz sentido e é justamente por isso que faz tanto.

Todos os nossos lados são bem-vindos aqui e isso é tão diferente de tudo que já vivemos que choramos de alívio e de assombro. É assustador olhar para o enorme vazio diante de nós, mas nos damos as mãos e caminhamos lado a lado. Pode se soltar porque se precisar eu te seguro. Posso me soltar porque com você eu estou segura. Não precisamos mais tentar não cair porque nos ajudamos a levantar. . Tudo. Bem.

Pela primeira vez na minha vida olho para o escuro e não sinto medo.

2 de outubro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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