o quarto

Tenho um amor incondicional por quando a lua no céu passa pela minha lua natal. Muito mais do que me sentir em casa, me sinto no meu quarto. Não é também qualquer quarto e muito menos o de agora, é — aquele — quarto.

Aquele onde o sol chegava logo depois do almoço e ficava até se pôr, e no seu rastro aquecido eu ficava deitada no chão de barriga para cima ouvindo os meus CDs preferidos estourando meus ouvidos no volume mais alto que o pequeno radinho preto conseguia gritar.

Aquele onde eu me sentava bem no meio no chão e me olhava no espelho quando sentia que precisava chorar. Via as lágrimas nascendo e morrendo na ponta do queixo, virando poça no peito pequeno. Me olhava chorando para me fazer companhia e não sentir falta de outra pessoa ali para me confortar.

Aquele coberto de rabiscos feitos com caneta permanente de trechos das músicas que eu não conseguia parar de ouvir. Na parede, no armário, na escrivaninha, na parte de baixo da terceira gaveta cercando a lista com todos os poucos nomes que um dia me fizeram sentir.

Aquele que tinha uma vista privilegiada das noites de tempestade e eu abria as cortinas e me tranquilizava vendo os raios ramificados descendo nos céus seguidos dos tremores que faziam tudo balançar.

Aquele que tinha uma varandinha inteira só para mim, onde eu pendurava um barbante com peso para baixo chamando atenção da minha amiga que por incrível que pareça era vizinha e ela vinha para fora conversar.

Aquele onde acordei com a minha primeira ressaca e onde tantas vezes vi a noite virar dia anunciando a hora de ir para a escola e eu ia sem dormir. Corretivo nas olheiras, chapinha no cabelo e lápis preto por cima do que sobrou do dia anterior. Me arrumava com pressa, mas com calma porque de novo eu ia chegar atrasada e não conseguia me importar.

Dentro daquelas quatro paredes roxas aprendi que em noites de tormenta o melhor é abrir a cortina e admirar. A tempestade lá fora me permite sentir a tempestade aqui de dentro sabendo que eventualmente, assim como tudo, ela passa.

Aquele quarto que era mais do que um quarto e era muito mais que meu. Ele não existe mais, mas quando a lua no céu passa pela minha lua natal, é para lá que eu volto.

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pelo visto esse é o meu diário

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