os rastros de eternidade que deixamos para trás

Carrego comigo traumas que ainda não consigo lembrar e que fazem mais parte de mim do que consigo imaginar. Carrego comigo risadas em memórias que só consigo relembrar pelos poros. Carrego comigo histórias que nem minhas são, mas que acabaram esquecidas no bolsinho lateral da mochila e só fui ver agora tanto tempo depois, nem sei quem as deixou. Carrego comigo dores que nunca senti, amores que nunca vivi, futuros que nunca vão vir.

Parece pesada toda essa carga e às vezes ela realmente é, mas também é a satisfação de ter sempre comigo tudo o que eu preciso porque um dia já precisei e saber que, se algo me falta, vou dar meu jeito como sempre antes dei e descobrir como conseguir aquilo que falta à minha mais preciosa carga.

Se um dia, nem que por um só segundo, eu genuinamente amei, meu amor é agora seu, se o dei de presente foi porque quis e se para sempre o quiser, para sempre ele será. Se uma só vez me fez verdadeiramente sorrir, esse sorriso levarei comigo guardado dobrado com todo o cuidado na linha no canto do olho que sorri cada vez mais largo de tanto sorriso que já me foi dado.

Se no fim somos histórias, que bom que faço parte de parte da sua e que bom que faz parte de parte da minha. Enquanto partilhamos da nossa presença nos presenteamos com partes de nós que só descobrimos ter ao nos entregarmos. Aprendo mais sobre quem sou quando me vejo em seus olhos do que quando me vejo em mim. Me leio nos papéis que interpretamos e me conheço por dentro ao me virar do avesso para cada vez mais lhe conhecer.

Se de braços abertos lhe dou um abraço me dou e me recebo no encontro de peito com peito que cura tudo aquilo que nem lembravamos mais ainda ter que curar. No erro ou no acerto acertamos e erramos e caímos e tropeçamos e nos levantamos e dançamos subindo em meio-fios, pedras e bancos que encontramos pelo meio do caminho enquanto caminhamos lado a lado.

Hoje lhe dou um pedaço de mim que agora não é mais meu, amanhã talvez ele você me devolva enfeitado e melhorado depois de o deixar quentinho e aconchegado entre vários dos seus. Pego nas mãos com todo o cuidado o seu mais novo pedaço escolhido a dedo ou acidentalmente em mim largado e o planto na horta para que um dia os seus frutos orgânicos e belos possamos comer ao acordar. A inspiração que me trouxe até aqui chega até você de volta, bate e a mim retorna como poesia nova que me inspira e bate e volta.

Eterno é o que existe fora do tempo porque dele não precisa para existir. O que foi, o que é e o que pode vir a ser pouco importa se num vislumbre um instante de infinito nos toca e nos preenche de verdade. Quanta honra sinto em poder compartilhar momentos que se bastam em si mesmos e guarda-los na pele, nos olhos, nos lábios, nos ossos, nos dedos, nos rastros deixados para trás de tudo aquilo que é tanto, mas tanto que nem precisamos mais carregar.

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pelo visto esse é o meu diário

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