19 | paredes em branco dentro de mim

Como é bom poder ser cura, poder olhar nos olhos das pessoas ao meu redor e conseguir enxergar toda a diferença positiva que eu, de alguma forma, ajudei a acontecer. É isso que tem me motivado cada vez mais a buscar ser o meu melhor, porque quando me encontro no meu caminho dou carona pra quem estiver indo mais ou menos pro mesmo lado que eu.

Com meus dois pés fora do chão sinto sua energia e não a puxo mais pra mim, lembrei que o que é seu é seu e sou capaz me manter em paz. Seus espinhos não me furam e suas rachaduras não me quebram, assim como o que é meu não te machuca. Às vezes gosto de me deixar ser puxada pro seu mundo pra entender de onde vem, mas é recebendo sua sobrancelha franzida com meu sorriso tranquilo que ela se desfaz. Tá tudo bem.

Algum pensamento chegou e me empurrou pra longe, não sei o que foi, mas foi rude, brusco e doloroso. Permaneci ali enquanto ele tentava me expulsar e gentilmente o mandei embora. Vi quando chegou, turbulento e afiado e vi quando se foi deixando atrás de si um rastro. Talvez em outro momento ele volte, mas por agora ele sabe que permaneço ali.

Andei preenchendo silêncios com palavras erráticas, mas hoje te abraço em silêncio porque não há nada a dizer. Sinto em minhas mãos o peso sair de seus ombros, sinto em minha pele a aspereza da sua que pouco a pouco se aveluda, sinto em minha garganta o choro entalado se dissolver em suspiros e respirações profundas, sinto em minha mente a sua confusa se esvaziar, sinto em meu coração o seu.

Não vejo sua aura, mas sinto o que é seu como se fosse meu e tem vezes que é difícil me identificar, por isso me recolho. Me reencontro em meu próprio corpo e me registro pra quando te encontrar eu saiba como é ser eu e não me confunda com o que é ser você. Tem vezes que é difícil me separar, mas agora me lembrei.

Me lembrei de como é bom viver em minha própria pele, mesmo quando não é. Me lembrei de como gosto de habitar minha casa dentro de mim e a decoro com tudo o que já vivi. Sorrio com tranquilidade porque sei que sempre esteve, está e sempre vai estar tudo bem. Me conheço, sei de mim e sei que independente de onde esteja vou estar preenchendo o espaço ao meu redor com aquilo que me faz bem.

Aceito convites pra mundos que não são meus, aprendo tudo o que deles consigo tirar e dou de presente tudo aquilo que consigo deixar, depois volto pra casa trazendo comigo pedaços do que tive o prazer de receber. Penduro quadros de momentos e memórias em minhas paredes cada vez menos vazias e observo o mosaico variado de todos os corpos que, sem sair de dentro do meu, já visitei.

23 de setembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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