14 | que eu me lembre de viajar

Olho pela janela do carro e vejo as paisagens mudando numa velocidade além do que a mente humana foi feita para enxergar. Criamos carros, trens, navios e aviões e nos esquecemos que antes se viviam vidas inteiras praticamente sem sair do lugar. Sei que esse pensamento não é original, mas não sei de onde ele veio. Olho pela janela do carro e me sinto viajando em uma máquina do tempo. Estamos, literalmente, fazendo tempo onde antes não existia e guardando horas no bolso pra encontrar depois sem querer como se fossem notas de dez reais.

Queria conseguir converter conversa em distância e saber o quanto nós teríamos que caminhar pra viver tudo isso que vivemos no banco confortável no ar condicionado. Será que nossa mente viajou tão rápido quanto o carro?

Amo viajar mais do que amo chegar, disso tenho certeza. É o espaço indefinido entre um lugar o outro que faz com que eu me sinta mais em casa que parada. Não importa o quanto o que eu queira esteja do outro lado, quando me sinto em deslocamento quero que ele continue até passar do ponto, até esquecer que existe um ponto, até esquecer de onde saí e pra onde estou indo porque nada importa, o movimento não depende de mim e já está acontecendo, só me resta existir ali nesse tempo fora do tempo e nesse espaço entre espaços.

Não tem o que fazer, só existir ali. É só existir ali e fazer o que eu quiser porque não tem o que fazer. É deixar que o tempo corra sem tentar o segurar e nem se segurar nele. É esquecer que o tempo existe porque naquele momento ele meio que deixa de existir mesmo, é só quando se chega que se percebe o quanto se passou de verdade. O quando que tudo mudou, na verdade, mesmo sem nada mudar.

Olho pela janela da frente do carro porque me sento no meio do banco de trás. Na ida eu me sentava na ponta e olhava pela janela da esquerda. Percebo como cada lugar do carro evoca uma viagem diferente e penso no que eu estaria pensando se eu estivesse em cada um dos outros quatro lugares naquele momento.

Estar no meio me faz viajar pra dentro mais do que pra fora porque é fácil me lembrar de onde estou. Noto cada uma das pessoas ao meu redor e como cada uma viaja uma viagem totalmente sua enquanto viajamos todes juntes pro mesmo lugar. Vez ou outra nos encontramos no meio e nos lembramos de quem somos naquele contexto. Alguém precisa fazer xixi? Alguém quer comer alguma coisa? Ainda tem água aí?

Eventualmente chegamos e a vida segue como seguia antes. Todo o movimento nos trouxe pra onde precisávamos estar e tudo o que aconteceu nesse meio tempo foi extra porque antes nada disso poderia acontecer, mas agora não só acontece como aconteceu e tomara que aconteça mais vezes porque puta merda como eu amo viajar.

18 de setembro de 2022

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pelo visto esse é o meu diário

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