receita de família

Entendi que era domingo pelo barulho de cozinha. A chuva batendo forte em minha janela fez meus olhos entenderem que poderiam voltar a se fechar, e foi isso que fizeram por não sei quanto tempo até que milhares de panelas pareceram despencar em cima de mim. “Aaaargh”. Silêncio. Mais panelas, só que agora uma de cada vez. Levantei sem querer e fui arrastando os pés até a cena do crime, onde encontrei minha mãe terminando de recolher os vestígios de seu mais recente acidente.

“Te acordei, né? Desculpa, mas também já era hora”. Ela vestia sua roupa típica de final de semana: short, camisetão e farinha.

“Uhum”, respondi bocejando.

“Me ajuda aqui então. Vai cortando e dobrando essa massa ali e botando aqui do meu lado enquanto eu frito”.

E lá fomos nós, cortando, dobrando e fritando a massa de calça-virada no silêncio mais confortável que já conheci. Essa era a receita dela, aprendida de não sei quem há não sei quanto tempo atrás, mas que ela se apropriou, modificou, adaptou e melhorou até que se tornasse irrevogavelmente sua.

Observando a fila de massa crua que esperava ser colocada no óleo quente percebi que nunca soube o que vinha antes disso. Não fazia ideia de como começa a feitura da massa que me tornei mestre em cortar e dobrar. Sempre acordei nessa parte do processo e, da mesma forma que costumo esquecer que minha mãe já existia antes de ser minha mãe, não pensei que a manhã dela começava muito antes de eu acordar.

Fiquei olhando suas hábeis mãos trabalharem enquanto tentava imaginar tudo o que já tinham feito. A destreza com que as movia contrastava com as várias queimaduras marcadas em sua pele. E foi aí que olhei para o seu rosto. Era como olhar para uma tela que volta e acelera o filme tentando encontrar a cena em que parou de assistir, só que quem via o filme era ela, a mim só eram visíveis os mecanismos girando para a frente e para trás em seus olhos fixados na panela de óleo quente.

De repente me senti extremamente burra por nunca ter percebido o óbvio. Eu, na minha ingenuidade egocêntrica de filha mais nova nunca pensei duas vezes sobre o por quê de minha mãe gostar tanto de fazer aquela receita, mesmo quando ninguém mais a aguentava comer. Ainda que não tivesse perguntado quais outros ingredientes iam na massa além da farinha, aprendi que o ingrediente secreto da receita de família não era amor, era a sua ausência.

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pelo visto esse é o meu diário

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