Quando foi que pensar virou uma coisa ruim?

Quando a ideia de revisar, refletir e pensar antes de agir está associada a pânico e terror, podemos perceber que claramente muitas coisas precisam urgentemente ser revistas, revisadas e pensadas sobre.

O meu ponto é: a nossa reação a qualquer acontecimento muitas vezes — queria dizer sempre, mas não sou tão ousada — fala muito mais sobre nós do que qualquer implicação do acontecimento em si. Uso a astrologia aqui como referência para ilustrar minhas ideias porque é o que mais faz parte da minha vida no momento, mas isso se aplica a qualquer coisa, então sinta-se livre para adaptar.

A visão comum que se tem sobre acontecimentos astrológicos normalmente é muito mais dramática do que eles realmente são, afinal, os ciclos planetários são infinitamente gigantes se comparados à nossa existência minúscula de formiguinha. Só isso já fala da nossa necessidade de grandeza. O desespero que se cria em torno de retrogradações, por exemplo, chega a ser cômico, pois essencialmente o que elas dizem é que as questões relacionadas àquele planeta entram em um estado de revisão.

Desde quando revisar é ruim? Ouso dizer que é essencial para que se tenha qualquer resultado minimamente bom. Você não revisava seus trabalhos na escola antes de entregar? Na faculdade? Não revisa o que faz no trabalho? Pois deveria. Hoje uma das coisas que mais me tira do sério é ver o quanto ninguém mais para pra pensar sobre o que está fazendo nem por um segundo antes de fazer. Quantos problemas poderiam ser evitados se as pessoas pensassem um pouquinho mais sobre o que fazem? É o famoso barato que custa caro, a pressa que atrasa mais ainda.

Saturno acabou de ficar retrógrado. Saturno, antigamente conhecido como o "grande maléfico" causador de todos os males e que até hoje é visto como um peso na área onde está. Tudo o que ele faz é cobrar responsabilidade, é mostrar que se você quer alguma coisa precisa fazer com que ela aconteça, é sobre não esperar que as coisas caiam no seu colo. O temidíssimo retorno de Saturno fala sobre um período de tomada de consciência, onde você entende que para ter o que tanto quer precisa se dedicar e fazer por onde. É fácil? Não. Mas é simples. É inclusive extremamente benéfico a longo prazo. E é tudo isso que Saturno quer, o seu bem a longo prazo, sem essa baboseira de gratificação instantânea que não leva a nada.

Mercúrio fica retrógrado nesse sábado e já começa o pânico. Digo tranquilamente que um dos momentos mais importantes da minha vida veio com mercúrio retrógrado, o do final do ano passado em escorpião. Foi um momento onde eu realmente fui forçada a parar, não por uma força misteriosa que me segurou no chão, mas sim por ter um aumento no contato com as minhas emoções, que por muito tempo foram deixadas de lado por conta da minha mente frenética que não cala a boca por tempo o suficiente para que eu consiga entender profundamente o que estou sentindo.

Esse foi um período onde meu pensamento diminuiu tanto que eu passava horas do dia sentada na varanda tomando meu café e pensando em absolutamente nada, apenas existindo. Isso me permitiu chegar muito fundo dentro de mim e entender o meu funcionamento interno. Foi fácil? Não. Era todo dia um choro diferente, e choro feio de soluçar. Acabei dando de cara com muitos dos meus traumas e medos que estavam ali escondidos durante muito tempo, mas sempre presentes. E eu chorava. Passava horas chorando sem saber o que fazer. Mas tudo bem, porque aquele não era um momento de agir, era um momento de sentir. O entendimento foi vindo aos poucos, a ação mais ainda.

Claro que eu tive o benefício de poder dispor desse tempo de ficar acabada no sofá ou olhando para o céu, nem sempre e nem todos temos esse luxo. E obviamente que quando você tem um trabalho, estudo, filhos ou qualquer outro tipo de responsabilidade que te exige tempo e onde você tem que produzir independente de qualquer coisa, passar por esses tumultos internos é no mínimo extremamente desconfortável. Aí entra o grande problema do sistema que a gente vive onde tempo é dinheiro -geralmente pros outros- e qualquer tipo de inatividade é vista como um absoluto desperdício.

Desde que comecei a entender melhor os ciclos planetários e ver que um momento nunca é isolado, mas sim resultante de acontecimentos prévios e que culminam em acontecimentos futuros, comecei a me alinhar com eles e percebi que as coisas realmente tendem a fluir um pouco melhor dessa forma. É como estar no mar e resolver voltar para a praia, você vai chegar lá de qualquer forma, mas quando espera a onda que está chegando e dá um pulinho pra frente na hora que ela passa, vai mais longe mais rápido, mas logo ela para e tem um movimento contrário. Nesse momento, você pode continuar andando para a frente, mas vai mais lentamente porque está indo contra a corrente, ou pode parar um pouquinho e esperar a próxima onda para não se cansar mais do que precisa, pode até voltar um pouco. Você provavelmente vai chegar na praia independente do caminho que faça, mas a sua experiência no caminho pode ser mais ou menos agradável.

Hoje é bem mais difícil pra mim ficar sentada na varanda tomando meu café e simplesmente existindo, a cabeça tem mais dificuldade de desacelerar, então sou muito grata a eu mesma por ter me permitido saborear esses momentos enquanto eles estavam favoráveis, e mal posso esperar por outro período como aquele, mas tudo bem porque agora é outro momento com várias outras questões, um momento que exige responsabilidade, especialmente responsabilidade social, pensamento crítico, cuidado com o tipo de informação que produzimos e consumimos e a noção de que nossas ações impactam o mundo de alguma forma. Nada além do necessário nesse momento, não? Já passou da hora.

Dei uma longa volta para chegar no ponto de que na minha perspectiva não existe bom ou ruim na astrologia, ou na nossa personalidade como um todo. Tudo pode ser bom ou ruim, inclusive os dois ao mesmo tempo. Muitas vezes vemos questões como um aspecto tenso ou uma posição desarmônica, começando pelo ponto de que nossa visão coletiva sobre o que é harmônico está claramente totalmente deturpada — vide faces — , mas também pelo fato de que tanto faz na verdade. Depende da sua vida, da sua forma de lidar com as coisas, das suas prioridades no momento, das suas experiências, do quanto você tem controle sobre a sua situação. Tudo depende de tudo (esse é o meu lema de vida, inclusive).

Vamos de exemplo tosco: se você quiser pegar o seu gato no colo, isso cria um tipo de tensão e desgaste, pois você precisa se abaixar, levantar o gato e segurar ele por um tempo. É preciso usar os músculos e fazer um esforço para que isso aconteça. Caso você não goste de gatos, não queira pegar ele no colo e nem ele queira a sua companhia, realmente não faz sentido esse trabalho todo, além de que pode te render uns arranhões, mas caso você ame seu gato, queira a companhia dele e ele queira muito estar no seu colo também, você nem vai considerar isso um esforço tendo em mente o retorno de um momento gostoso de carícias felinas.

A minha lua tem como companhia planetas grandes e lentos, muito maiores do que ela e muito, mas muito mais distantes. Isso tem, como diria minha mãe, seus ônus e bônus. Por um lado, sofro influências no meu emocional de coisas que muitas vezes não compreendo, medos e ansiedades aumentam e tomam conta do meu dia a dia e, por sentir tudo com muita intensidade, situações que normalmente são consideradas pequenas causam reações emocionais muito desproporcionais da minha parte. Por outro lado, e um lado que eu só comecei a ver, entender e desenvolver muito recentemente, diga-se de passagem, tenho uma imaginação muito fértil, capacidade de compreender coisas maiores e externas a mim, além de um grande potencial de percepção extra-sensorial, que hoje entendo ser a raíz de muitos dos meus medos, e que venho me dedicando intensamente para entender melhor.

Como podemos perceber, isso me favorece ou desfavorece dependendo do ponto de vista e da situação onde estou. Quando passo muito tempo cercada de outras pessoas e sem tempo para me centrar, começo a ter uma sobrecarga emocional, me sinto exausta, angustiada e instável. Mas quando tenho tempo para me isolar, diminuo o tumulto interno e consigo perceber o que é meu e o que vem de fora, usando essa sensibilidade a meu favor.

Tudo isso para dizer que refletir não é ruim, revisar não só é recomendado como essencial, e que todos nós nos beneficiaríamos de pensar mais sobre o que vemos, ouvimos, lemos, e principalmente sobre o que pensamos, e, tendo chegado até aqui, podemos também pensar sobre como pensamos sobre o que pensamos. A resposta normalmente está no lugar que a gente evita procurar.

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pelo visto esse é o meu diário

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